27/08/2009

A FLAUTA-VÉRTEBRA
A todas vocês,
que eu amei e que amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto o meu crânio.
Penso mais de uma vez:
seria melhor talvez
por-me o ponto final de um balaço.
em todo caso
eu
hoje vou dar o meu concerto de adeus.
Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
Esta noite ficará na história.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.
Vladímir Maiakóviski / 1915
tradução:
Haroldo de Campos e Boris Schinaiderman
NACOS DE NUVENS
No céu flutuavam trapos
de nuvem - quatro farrapos:
do primeiro ao terceiro gente;
o quarto - um camelo errante.
A ele, levado pelo instinto,
no caminho junta-se um quinto.
Do seio azul do céu, pé-ante-
pé, se desgarra um elefante.
Um sexto salta - parece.
Susto: o grupo desaparece.
E em seu rasto agora se estafa
o sol - amarela girafa.
Vadímir Maiakóviski / 1918
tradução:
Augusto de Campos
Boris Schnaiderman, Augusto e Haroldo de Campos / Editora Perspectiva

Haroldo de Campos
GALAXIAS ( I )
e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa
não é a viagem mas o começo da por isso meço por isso começo escrever
mil páginas escrever milumapáginas para acabar com a escritura para
começar com a escritura para acabarcomeçar com a escritura por isso
recomeço por isso arremeço por isso teço escrever sobre escrever é
o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoites miluma-
páginas ou uma página em uma noite que é o mesmo noites e páginas
mesmam ensimesmam onde o fim é o comêço onde escrever sobre o escrever
é não escrever sobre não escrever e por isso começo descomeço pelo
descomêço desconheço e me teço um livro onde tudo seja fortuito e
forçoso um livro onde tudo seja não esteja um umbigodomundolivro
um umbigodolivromundo um livro de viagem onde a viagem seja o livro
o ser do livro é a viagem por isso começo pois a viagem é o comêço
e volto e revolto pois na volta recomeço reconheço remeço um livro
é o conteúdo do livro e cada página de um livro é o conteúdo do livro
e cada linha de uma página e cada palavra de uma linha é o conteúdo
da palavra da linha da página do livro um livro ensaia o livro
todo livro é um livro de ensaio de ensaios do livro por isso o fim-
comêço começa e fina recomeça e refina e se afina o fim no funil do
comêço afunila o comêço no fuzil do fim no fim do fim recomeça o
recomêço refina o refino do fum e onde fina começa e se apressa e
regressa e retece há milumaestórias na mínima unha de estória por
isso não conto por isso não canto por isso a nãoestória me desconta
ou me descanta o avesso da estória que pode ser escória que pode
ser cárie que pode ser estória tudo depende da hora tudo depende
da glória tudo depende de embora e nada e néris e reles e nemnada
de nada e nures de néris de reles de ralo de raro e nacos de necas
e nanjas de nullus e nures de nenhures e nesgas de nulla res e
nenhumzinho de nemnada nunca pode ser tudo pode ser todo pode ser total
tudossomado todo somassuma de tudo suma somatória do assomo do assombro
e aqui me meço e começo e me projeto eco do comêço eco do eco de um
começo em eco no soco de um comêço em eco no oco de um soco
no osso e aqui ou além ou aquém ou láacolá ou em toda parte ou em
nenhuma parte ou mais além ou menos aquém ou mais adiante ou menos atrás
ou avante ou paravante ou à ré ou a raso ou a rés começo re começo
rés começo raso começo que a unha-de-fome da estória não me come
não me consome não me doma não me redoma pois no osso do comêço só
conheço o osso o osso buço do comêço a bossa do comêço onde é viagem
onde a viagem é maravilha de tornaviagem é tornassol viagem de maravilha
onde a migalha a maravilha a apara é maravilha é vanilla é vigília
é cintila de centelha é favilha de fábula é lumínula de nada e descanto
a fábula e desconto as fadas e conto as favas pois começo a fala
* Trecho do poema Galáxias de Haroldo de Campos *
Haroldo Eurico Browne de Campos
seu primeiro livro é de 1949 poeta de vasta, profunda e sofisticada cultura, poliglota, aprendeu "os primeiros" idiomas no Colégio São Bento, como o latin, inglês, espanhol e francês., O Auto do Possesso quando, ao lado de Décio Pignatari, participava do Clube de Poesia. em 1952, Décio, Haroldo e seu irmão Augusto de Campos rompem com o Clube, por divergirem quanto ao conservadorismo predominante entre os poetas, conhecidos como Geração de 45". a crença em uma "crise no verso" o levou ao experimentalismo, à busca de novas formas de estruturação e sintaxe, em curtos poemas-objeto ou longos poemas em prosa.fundam, então, o grupo Noigandres, passando a publicar poemas na revista de mesmo título. nos anos seguintes defendeu as teses que levariam os três a inaugurar em 1956 o movimento concretismo, ao qual manteve-se fiel até o ano de 1963, quando inaugura um trajeto particular, centrando suas atenções no projeto do livro-poema "Galáxias". doutorou-se pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, sob orientação de Antônio Cândido. considerado o "mais barroco" dos concretistas, em 1999, o Prêmio Jabuti de poesia foi conferido para seu livro "Crisantempo: No Espaço Curvo Nasce Um" (1998). foi professor da PUC-SP, bem como na Universidade do Texas, em Austin. dirigiu até o final de sua vida a coleção Signos da Editora Perspectiva. "Transcriou" em português poemas de autores como Homero, Dante, Mallarmé, Goethe, Mayakovski, além de textos bíblicos, como o Gênesis e o Eclesiastes. com mais de 30 livros publicados, como "A Máquina do Mundo Repensada", último livro publicado em vida, onde declara já em seu título o diálogo com A Divina Comédia (Dante), Os Lusíadas (Camões), produziu numerosos e fundamentais ensaios de teoria literária, entre eles A Arte no Horizonte do Provável (1969).
22/08/2009

Sapato italiano. Terno inglês. Ajustou a gravata francesa e pulou da Golden Gate: elegante até o fim.
alexandre brito
do inédito sem nome
15/08/2009
ela agachou no meio fio e aliviou
indiferente às buzinas
aos cuspes
a todas as latrinas
ela fumava um fino ainda
e tinha um resto de dente no sorriso
fazia contorcionismo
para ver a fumaça que fugia
da calçada
mijo quente pedra fria
tanta gente passava
ninguém (h)a via
Sandra Santos
gaúcha de temperamento mate. não coleciona prêmios nem escândalos. tem escrito a vida por linhas tortas, mas longe dos holofotes. o poema "Buceta de suburbio ornamentando a rua" é do seu inédito "Lexofágico".
13/07/2009
| As três cortesãs e a poesia chinesa na Dinastia Tang por Ricardo Portugal e Tan Xiao |
| A história da China anterior à fundação da República (1912) é descrita pela sucessão de dinastias nacionais e regionais, cada uma delas marcada por uma identidade cultural. A “idade de ouro” da cultura clássica chinesa foi alcançada na Dinastia Tang (618-905 d.C.). Foi principalmente essa dinastia chinesa, caracterizada pelo cosmopolitismo e por uma diplomacia ativa, que serviu de matriz para o desenvolvimento posterior, por adaptação e refinamento, da cultura japonesa. A poesia da Dinastia Tang é considerada o auge da poesia clássica chinesa. Essa produção poética foi depositária de uma já longa tradição literária e linguística, a qual remonta às primeiras grandes antologias de cantos antigos: o Shi Jing (Livro da poesia), compilação da Dinastia Zhou (1045-256 a.C.), e o Chu-ci (Cantos do país de Chu), que aparece no período dos Reinos Combatentes (em torno do século iv a.C.). A prolificidade e, ao mesmo tempo, alta qualidade dessa poesia é notável. A popular antologia Poemas completos da Dinastia Tang, compilada posteriormente, no século xvii (Dinastia Qing), por ordem imperial, contém aproximadamente 50 mil poemas, escritos por 2200 autores. Terão havido mais nomes importantes, e muitos textos se perderam. Entre esses poetas, há “apenas” 190 mulheres. Naquele período histórico de intensa vida urbana culta, a situação da mulher era bastante mais favorável que em outros momentos da história da China. A elas era permitida uma inserção social mais livre e igualitária. Ainda que excluídas do sistema dos exames imperiais que selecionavam a elite dominante, muitas mulheres possuíam educação e conhecimento literário. Mesmo assim, as moças “de família” não eram encorajadas a escrever poesia e muito poucas recebiam o treinamento literário e artístico requerido de um intelectual na tradição confuciana. Meninas de famílias de ricos oficiais do Estado, a classe dominante, eram, por vezes, aceitas nas escolas de seu clã juntamente com os meninos, ou tinham tutores particulares. Mas geralmente as mulheres eram educadas o suficiente para exercerem funções do lar, sendo útil a leitura de livros sobre a correta conduta feminina, que ensinavam as virtudes da passividade, da modéstia, da moderação e da obediência aos futuros maridos e aos parentes do sexo masculino. Nessa sociedade, floresceu uma casta de cortesãs cultas, recrutada entre meninas vendidas por causa da pobreza, oriundas de famílias de funcionários caídos em desgraça, ou ainda sequestradas. Essas mulheres eram amiúde mais livres que esposas e concubinas em suas vidas sociais. Algumas delas mantinham vínculo servil a um bordel. Também ocorria de famílias ricas manterem em suas propriedades grupos de mulheres com cultura literária, as quais trabalhavam como dançarinas e musicistas, chamadas de “cortesãs da casa”. Havia também as “cortesãs oficiais”, assim chamadas porque atuavam em festividades palacianas ou porque eram ligadas aos mais caros bordéis da capital, sendo requisitadas por funcionários eminentes. Prósperas casas de cortesãs eram mantidas próximas ao local dos exames imperiais, e quando os resultados eram anunciados, realizavam comemorações. Essas cortesãs eram chamadas a entreter banquetes no palácio imperial e em residências abastadas. As mais talentosas eram versadas nas artes clássicas (música, poesia, caligrafia, pintura) e eram tratadas como iguais em discussões e concursos de poesia. Muitas eram resgatadas por homens ricos e poderosos e se tornavam suas concubinas. Esse foi o caso da poeta Xue Tao, famosa por sua beleza e seu talento. Entre seus amigos e admiradores, estavam alguns dos mais considerados poetas de seu tempo, como Bai Juyi e Yuan Zhen. Também na Dinastia Tang, as sacerdotisas taoístas eram mulheres de vida autônoma, que gozavam de grande liberdade em suas relações sociais. Ao contrário das monjas budistas, sua opção monástica não incluía a abstenção das relações sexuais. As sacerdotisas taoístas transitavam pela casta das cortesãs, podendo viajar livremente, mudar-se e associar-se a seu bel-prazer. Muitas, especialmente as mais abastadas, tinham amantes e participavam ativamente da rica vida cultural e literária da época. Algumas mantinham concorridas festas e saraus literários em suas residências. As poetas Yu Xuanji e Li Ye estavam entre as mais influentes sacerdotisas taoístas de sua época. Yu Xuanji realizou muitas viagens, e vários de seus poemas são escritos em trânsito. Entre seus amantes e admiradores, estava o renomado poeta Wen Tingyun. Li Ye era uma poeta bastante respeitada em sua época. Era também famosa pelas posições políticas muito críticas e pela personalidade forte e impositiva. Atribui-se a inimizades políticas o fato de sua biografia ser pouco conhecida e não muitos de seus poemas terem permanecido. A extraordinária delicadeza e sensorialidade de sua poesia, rica em sinestesias, mescla-se com escolhas vocabulares agressivas, até violentas, e mesmo com recurso a alguma vulgaridade. A seguir, apresentamos algumas traduções que compõem o livro que estamos preparando, bilíngue, de poetas mulheres da Dinastia Tang. As traduções são feitas diretamente do texto em chinês (confrontadas com traduções em inglês), o qual é reproduzido abaixo.
Xue Tao 薛涛 CANÇÃO CONTEMPLANDO A PRIMAVERA (iii) Ao sopro do dia envelhecem as flores Longe o momento, tão longa a espera Nenhum laço une amor e amante trança o vazio meu nó-do-amor (iv) Insuportáveis os galhos repletos, flores demais! Saudades às pencas Plena manhã, o espelho reflete à primavera as lágrimas, o vento 春望词四首 (三) 风花日将老, 佳期犹渺渺。 不结同心人, 空结同心草。 (四) 那堪花满枝, 翻作两相思。 玉箸垂朝镜, 春风知不知。
Li Ye 李冶 DOENTE JUNTO AO LAGO – SAUDAÇÃO A LU YU Sobre a geada a lua, à tua ida e hoje retornas na amarga neblina Eis-me deitada, enferma, aqui me encontras À fala acorre a lágrima, escorre Vens, e do vinho de Tao me ofereces e te devolvo um poema de Xie Encher a cara contigo outra vez mais do que isso, que posso querer? 湖上卧病喜陆鸿渐至 昔去繁霜月, 今来苦雾时。 相逢仍卧病, 欲语泪先垂。 强劝陶家酒, 还吟谢客诗。 偶然成一醉, 此外更何之。
CANTO DE SAUDADE Profundo, dizem do mar, suas águastão mais ao fundo chega a saudade Mar sem margens, larga a sua praia e mais longe alcança meu sentimento Tomo o alaúde, subo as escadas só no terraço, com a lua cheia e esta canção que diz: estou triste toco e arrebento as cordas, as tripas 相思怨 人道海水深, 不抵相思半。 海水尚有涯, 相思渺无畔。 携琴上高楼, 楼虚月华满。 弹著相思曲,弦肠一时断。
ADEUS EM UMA NOITE DE LUA Separar em silêncio, e a lua esplende sem rumor nem fala. O sentimento irradia o adeus que falta, e à lua cintilam nuvens, águas e cidades明月夜留别 离人无语月无声, 明月有光人有情。 别后相思人似月, 云间水上到层城。
Yu Xuanji 鱼玄机 A UMA GAROTA DO BAIRRO A manga esconde em gaze o dia, tímida E é primavera, há que maquiar-se Dar com tesouros sem preço: isso é fácil Achar um homem amante, tão difícil No travesseiro as lágrimas se ocultam e em meio às flores cala o coração mas se posso paquerar um Song Yu por que lamentaria um Wang Chang? 赠邻女 羞日遮罗袖, 愁春懒起妆。 易求无价宝, 难得有心郎。 枕上潜垂泪, 花间暗断肠。 自能窥宋玉, 何必恨王昌。
PARA OS SALGUEIROS JUNTO AO RIO Um halo em jade às margens devolutasnuvens procuram pavilhões distantes As sombras deitam-se no rio de outono as flores descem sobre os pescadores Raízes densas são abrigo aos peixes e enlaçam os ramos barcos visitantes Suspira a noite à chuva geme ao vento vertem tristeza os sonhos revolutos 赋得江边柳翠色连荒岸, 烟姿入远楼。 影铺秋水面, 花落钓人头。 根老藏鱼窟, 枝低系客舟。 萧萧风雨夜, 惊梦复添愁。
Ricardo Portugal é poeta e diplomata, graduado em Letras pela UFRGS. Viveu cinco anos em Pequim e em Xangai. Publicou: DePassagens (Ameop, 2004), Arte do risco (SMCPA, 1992), entre outros. Organizou a edição bilíngue chinês-português Antologia poética de Mário Quintana (PUCRS, 2007), primeiro livro de poeta brasileiro traduzido para o chinês, com o apoio do Consulado Geral do Brasil em Xangai. Tan Xiao é graduada em Letras, com ênfase em língua inglesa e ensino das línguas inglesa e chinesa pela Universidade Zhong Nan, Changsha, Hunan, República Popular da China. Foi intérprete e tradutora da Embaixada do Brasil em Pequim. Atualmente, é funcionária do escritório brasiliense da empresa Huawei. |
04/07/2009
Dia 04/07 (sábado) 18h30
Qual é a do Erasmo de Roterdã
uma conversa entre três leitores do escritor e teólogo holandês, sobre
a escrita e as idéias de Erasmo de Roterdã no livro "O elogio da loucura".
Ricardo Silvestrin
escritor e músico
Carlo Pianta
músico, compositor e mestrando em literatura brasileira
Alexandre Brito
poeta e compositor
"Qual é?" acontece mensalmente, aos sábados, na livraria Palavraria.
rua Vasco da Gama, 165 - tel. 32684260
grátis
01/07/2009
poesia brasileira contemporanea - contemporary Brazilian poetry
" Luuua, luuuua, luuuua,
Lá no auuu, lá no au auuuu,
Lá no alto brilhando!
Luuua, luuuua, luuuua!
Aluuuu... aluuuu... aluminando
Ora se não é o primo lobo
Nos dando concerto noturno
Mas cala essa boca logo
Antes que voe um coturno!
Ora veja, primo cachorro
Como está gordo e cevado
Enquanto eu de fome morro
Que boa vida tem levado!
Realmente não me queixo
Porque nada me faz falta
Tenho comida – até deixo
Que também nem cabe tanta
Na mata, primo, nem queira
Saber como anda a vida
Se anda a semana inteira
E não se acha comida!
Aqui tenho até uma casa
Ao lado da do meu patrão
Não por pouco fico prosa
Isto sim que é um vidão!
Na mata, o céu é o abrigo
Por teto somente folhas
Cobertas é aperta-se a um amigo
Se chove, por certo te molhas
Isso que tens não é vida
Isto é só necessidade
Devias deixar esta lida
Com os homens fazer sociedade
Mas que posso fazer
Pra conquistar tal amizade
Se o homem só de me ver
Já dá tiros sem piedade?
Também, o que queres?
Pudera! Basta alguém se aproximar
Já fazes cara de fera
E começas a rosnar! "
Renato de Mattos Motta é múltiplo. poeta, artista-plástico, fotógrafo, tradutor, publicitário. publicou Pau de Poemas (com ilustrações próprias em xilogravura), Salamanca (adaptação para quadrinhos de J. S. Lopes Neto), Fotopoemas e a Coleção Fogo do Verbo (caixas de fósforos com poemas). é responsável pela concepção gráfica e conceito editorial da Coleção Poesia Viva. o trecho postado é do primeiro volume do seu Os Cantos da Carochinha, transposição livre, em versos, das Estórias da Carochinha (que integra a Coleção Poesia Viva), lançada recentemente pela Editora Porto Poesia (portopoesia2@gmail.com).
O museu
por que um museu?
perguntou a musa ao dicionário
porque é necessário respondeu
tem que ter
um lugar um lugar um lugar
onde ver cabe dentro do olhar
que mancha vira rinoceronte
janela porta proutro horizonte
hoje nunca esquece de anteontem
e mármore flutua mais leve que o ar
um lugar sem pressa
que os azulejos contem uma história
e as escadas encantadas
levem ao mundo dos contos de fada
onde a emoção exata de um tigre
salte da xícara para a íris
e uma idéia, na sua forma alada mais rara
surpreenda o visitante e encontre um coração
um lugar que...
quando todos vão embora
e tudo fica completamente a sós
o vento que vem de lugar nenhum
sopra pelos corredores
as esculturas ganham vida
os personagens descem dos quadros
seguem todos para o grande salão
e lá reunidos, se divertem, dançam
fazem piadas sobre nós
alexandre brito
ilustração: Eduardo Vieira da Cunha
24/06/2009

Castelinho do Alto da Bronze Cultural
Sete! Será mandinga?
Sete artistas tomam o castelo imortalizado pela lenda urbana de Porto Alegre e instalam suas idéias entre as paredes misteriosas do Alto da Bronze. Escultores, pintores, desenhistas, poetas, misturam tudo isso e dão asas à imaginação, para transformar o endereço famoso da Fernando Machado, em mais um ponto irradiador de Cultura.
Alejandro Ruiz Velasco, Adriana Xaplin, Elen de Oliveira, Lena Kurtz,
Lisete Bertotto, Manoel Henrique Paulo e Sandra Santos, entregam à comunidade artística, ao público leitor, aos admiradores das artes plásticas, da fotografia, da magia das cores caleidoscópicas, um espaço único de oficinas e experimentações sinestésicas... o Castelinho do Alto da Bronze Cultural.
neste sábado dia 27 de junho será inaugurado o Castelinho Cultural. confiram as atrações.
Programação:
Às 16 h - Abertura e recepção do público pela trupe circence "Cia Mundo Paralelo", e, sob o auspício do sol, observação da mágica prismática do Caleidoscópio gigante do Torreão
Às 18 h - show dos "poETs", banda formada pelos poetas Alexandre Brito, Ricardo Silvestrin e Ronald Augusto
na sequência:
- Telma Scherer e o seu espetáculo de poesia "O Rumor da Casa"
- Aninha Freire e Cibele Endres com duo de flautas
- Marisa Rotemberg
- entre outras atrações.
Confirme presença através do email: castelinhocultural@yahoo.com
13/06/2009
poesia brasileira contemporanea - contemporary Brazilian poetry
.
como o sopro da chaminé
em frente a casa
o cedro envelhece
enquanto faço versos
em minhas mãos dançam rugas
que ao contorno da escrita obedecem
aduncas
que tantas tardes
se encarregam de compor
à pele em flor
no entanto faço versos
como os galhos encanecidos
das árvores que serenamente
seguem o vento
.
Juliana Meira é poeta e tem nos livros de direito uma companhia que beira a estranheza. mas tudo é estranho no caminho de um poeta. quando li seus primeiros poemas vi que havia encontrado uma poeta. agora estréia em livro com seu "poema dilema", editado pela jovem e alvissareira editora Porto Poesia (portopoesia2@gmail.com). Juliana também escreve no tempoema (www.juliana-meira.blogspot.com).
Benção
O tempo tatua marcas
suaves na minha pele
como se escrevesse um poema
como se minhas cicatrizes
pudessem salvar a minha alma.
Mara Faturi tem muitos ocos dentro dela. também alguns abismos e porteiras fechadas. atrás dos seus olhos há uma vertente que de vez em quando se inunda de si mesma. então se lança em vôos de poeta num silêncio de azul profundo. essa é a Mara. essa é a poeta. acaba de lançar "andanças" pela editora Porto Poesia (portopoesia2@gmail.com).
17/05/2009
do inédito Cine ABC
13/05/2009
05/04/2009
dezenas de passarinhos o visitam diariamente
na sacada do apartamento
há um relacionamento de confiança entre eles
Cambacicas, Sanhaços, Saíras, Beija-flores
querem seu quinhão de água doce e guaraná
lê a Zero todos os dias
ouve o noticioso, assiste aos telejornais
não dá mais pra acreditar nos políticos
bandido brasileiro só é bandido no exterior
aqui é ministro, deputado, senador
preocupa-se com os netos, com os amigos
com parentes, o condomínio
comigo como se eu tivesse 48 anos
minha mãe não
pra ela não passei dos oito, treze, dezoito
os passarinhos fazem algazarra na sacada
querem mais do néctar que só ele faz
cada um tem um pai que o trouxe ao mundo
eu tenho um que ainda me trás








