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27/08/2009


foto de Manuel Bandeira em seu observatório de livros


ESTRELA DA MANHÃ


Eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã

Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda parte


Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa?
Eu quero a estrela da manhã

Três dias e três noites
Fui assassino e suicida
Ladrão, pulha, falsário

Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecai por todos pecai com todos

Pecai com os malandros
Pecai com os sargentos
Pecai com os fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras

Com os gregos e com os troianos
Com o padre e com o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto

Depois comigo

Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas comerei terra
[e direi coisas de uma ternura tão simples

Que tu desfalecerás

Procurem por toda a parte
Pura ou degradada até a última baixeza
Eu quero a estrela da manhã.

Manuel Bandeira
do livro Estrela da Manhã.


A CÓPULA

Depois de lhe beijar meticulosamente
o cu, que é uma pimenta, a boceta, que é um doce,
o moço exibe à moça a bagagem que trouxe:
culhões e membro, um membro enorme e turgescente.

Ela toma-o na boca e morde-o. Incontinenti,
não pode ele conter-se, e, de um jacto, esporrou-se.
Não desarmou porém. Antes, mais rijo, alteou-se
E fodeu-a. Ela geme, ela peida, ela sente

Que vai morrer: - "Eu morro! queres que eu morra?!"
Grita para o rapaz que aceso como um diabo,
arde em cio e tesão na amorosa gangorra

E titilando-a nos mamilos e no rabo
(que depois irá ter sua ração de porra),
lhe enfia cona adentro a o mangalho até o cabo.

Manuel Bandeira



escultura: Lowe London

a realidade é uma oficina pirogênica

no sopé
da grande bunda pasmacenta
a cloaca sagrada expele repugnâncias e bem-aventuranças
que o artista decompõe pacientemente em seu
atelier psicobélico de inutilidades

cada fibra
cada naco putrefato levado ao sol
cada rejeito dejeto embalagem plástica reciclada
uma fratura exposta, acinte-impropério, artefato belicoso
sob encomenda para a Bienal Internacional das Artes
de São Joaquim de Campos Leão

enquanto isso a cidadela se diverte
na opulência de sua indiferença degenerada
costela gorda polenta assada drogas mentiras e sexo pago
integralmente deduzível da pessoa física

alexandre brito
do inédito Cine ABC
poesia brasileira contemporanea - contemporary Brazilian poetry



Sentiu ciúme ao ver outro garoto dependurado na goiabeira da sua infância.


alexandre brito
do inédito sem nome.
poesia brasileira contemporanea - contemporary Brazilian poetry
Las Manos del Horror - Guaysamin

a coisa

acelerou na curva
ao entrar na Cavalhada avistou longe um passageiro
na parada uma surpresa. ninguém
fora ilusão de ótica? podia jurar que vira alguém
sua vista aguçada não costumava errar. tudo bem
passava da meia-noite e meia. estava cansado
seria a última viagem antes de recolher

arrancou o carro. engatou uma segunda
virou para comentar o fato com o colega
desaparecera
mais frio que aquela noite de inverno foi o arrepio
que percorreu-lhe. incrédulo olhou uma outra vez
para certificar-se do que acabara de ver
evaporara mesmo. vestígio algum do cobrador

seguiu para o fim da linha direto sem escalas
não pararia nem para o papa
mas nem bem acabara de pisar fundo o acelerador
um ruído. a catraca gira
aquele som não fazia sentido
o sentido da avenida não fazia sentido
o horror agira. a coisa finalmente o atingira

alexandre brito
do inédito Cine ABC


A FLAUTA-VÉRTEBRA

A todas vocês,
que eu amei e que amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto o meu crânio.

Penso mais de uma vez:
seria melhor talvez
por-me o ponto final de um balaço.
em todo caso
eu
hoje vou dar o meu concerto de adeus.

Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
Esta noite ficará na história.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.

Vladímir Maiakóviski / 1915


tradução:
Haroldo de Campos e Boris Schinaiderman



NACOS DE NUVENS

No céu flutuavam trapos
de nuvem - quatro farrapos:

do primeiro ao terceiro gente;
o quarto - um camelo errante.

A ele, levado pelo instinto,
no caminho junta-se um quinto.

Do seio azul do céu, pé-ante-
pé, se desgarra um elefante.

Um sexto salta - parece.
Susto: o grupo desaparece.

E em seu rasto agora se estafa
o sol - amarela girafa.

Vadímir Maiakóviski / 1918


tradução:
Augusto de Campos

do livro Maiakóvski Poemas
Boris Schnaiderman, Augusto
e Haroldo de Campos / Editora Perspectiva

17/05/2009


oroboros
.
.
a língua é uma serpente sem pele e sem dentes
morde a si mesma com as gengivas de um velho diabo
.
já foi minha vizinha
mas no mês passado mudou para endereço ignorado
.
não bate bem do firmamento
tem a cabeça cheia de vocábulos
.
a víbora linguística
diz que do pensamento é o substrato
.
em nominar o inominado insiste
.
e só não é deus não porque não quer
mas porque ele não existe
.
.
alexandre brito
do inédito Cine ABC

05/04/2009

.
cambacicas

meu pai é uma espécie em extinção
dezenas de passarinhos o visitam diariamente
na sacada do apartamento

há um relacionamento de confiança entre eles
Cambacicas, Sanhaços, Saíras, Beija-flores
querem seu quinhão de água doce e guaraná

lê a Zero todos os dias
ouve o noticioso, assiste aos telejornais
não dá mais pra acreditar nos políticos
bandido brasileiro só é bandido no exterior
aqui é ministro, deputado, senador

preocupa-se com os netos, com os amigos
com parentes, o condomínio
comigo como se eu tivesse 48 anos
minha mãe não
pra ela não passei dos oito, treze, dezoito

os passarinhos fazem algazarra na sacada
querem mais do néctar que só ele faz
cada um tem um pai que o trouxe ao mundo
eu tenho um que ainda me trás
.
alexandre brito
do inédito Cine ABC

17/03/2009



Doravante Dora


Na noite escura
A luz é Dora
Dourada Dora
Mulher não és
Rabit, Dora?
Entre os sinais
Sinaliza Dora
Entre os espelhos
Já é Senhora
Sem mãe, sem pai
Sem história
Simplesmente Dora
Dourando ao sol
Dura luz
De Dezembro
É Dora
Café pequeno
No Café Concerto
Entre borboletas
Mariposa é Dora
DuraDoura
Contra a luz
No chafariz
Moeda morta
Meretriz
Menina insiste
Do fundo do fosso
Canção blue
Tema livre
Dora em declive
Teto Escarro Vão
Na noite escura
Luz difusa
Mariposa descontinua
Alguém chora
No beco escorre
Para sempre, Dora...
.
Sandra Santos
poeta, artista plástica, web-expert, assina o blog "A gata por um fio".

27/02/2009



não busco a palavra exata
o sentido. o sentimento
nem a pedra lançada no firmamento
ventania que represa o rio
entendimento

ou a palavra pela palavra
o sofrimento antigo. o novo
a liberdade selvagem do lobo
instinto que se quer arte
perfeição do ovo

não busco. mas encontro
.

alexandre brito
do inédito Cine ABC

18/10/2008





dissabor
de saber
eu sei


dessaber
de amar
eu soube


sabor de
não saber
eu sei de cor



alexandre brito
O fundo do ar e outros poemas / ameopoema editora