
11/04/2010

24/11/2009


21/11/2009


28/08/2009
a liberdade bastarda se infiltra onde
o céu encontra a terra
denuncia intensa atividade literária
essa idéia no papel derramada assim feito gelatina
nem parece uma idéia parece mais um
estorvo feito de cimento e osso
o sol miúdo sem bolor entesourado e mudo
desonera de rapapés e obrigações um aglomerado de
letras na biblioteca universal dos manuscritos
toda tradição se renova pela libertinagem
a boa nova vem pelo esquecimento intencional das regras
um livro que não descenda de nenhum outro é uma indecência
de sorte que o pecado original da invenção
mais que matar o padre e ir ao cinema
é declarar-se órfã pretender-se sem pai sem par
numa semana ensolarada de 22
um bebê de proveta aproveita a tarde à beira mar
no calçadão desenhado por Niemeyer
alexandre brito
do inédito Cine ABC
27/08/2009

do inédito Cine ABC


o mal-ajambrado pretende fazer boa figura
presunçoso nos modos e no vestir
não sente constrangimento algum de seus atos sensuráveis
dá um trato legal no visú
e sai por aí esbanjando malandrage
idade não desmerece
preto quase preto retinto
terno branco de bric
camisa de cetim vermelho, chapéu
branco também, usadinho em bom estado
de bric também
e já vai ele de bengala,
corrente dourada, anéis nos dedos
elegância manemolente
lhe cairia bem um dente de ouro no sorriso
mas não tem pro gasto
vai baixar lá no catimbó da Mãe serena
antiga na religião
renega Umbanda, Candomblé, Batuque
Catimbó é tradição
Mãe preta gosta de batidinha de coco
pinga com butiá, ou purinha mesmo
Mãe serena é Zé Pelintra
tem festa no Congá.
do inédito Cine ABC

do livro Zeros / Coleção Petit-Poa
22/08/2009

Sapato italiano. Terno inglês. Ajustou a gravata francesa e pulou da Golden Gate: elegante até o fim.
alexandre brito
do inédito sem nome
01/07/2009
O museu
por que um museu?
perguntou a musa ao dicionário
porque é necessário respondeu
tem que ter
um lugar um lugar um lugar
onde ver cabe dentro do olhar
que mancha vira rinoceronte
janela porta proutro horizonte
hoje nunca esquece de anteontem
e mármore flutua mais leve que o ar
um lugar sem pressa
que os azulejos contem uma história
e as escadas encantadas
levem ao mundo dos contos de fada
onde a emoção exata de um tigre
salte da xícara para a íris
e uma idéia, na sua forma alada mais rara
surpreenda o visitante e encontre um coração
um lugar que...
quando todos vão embora
e tudo fica completamente a sós
o vento que vem de lugar nenhum
sopra pelos corredores
as esculturas ganham vida
os personagens descem dos quadros
seguem todos para o grande salão
e lá reunidos, se divertem, dançam
fazem piadas sobre nós
alexandre brito
ilustração: Eduardo Vieira da Cunha
17/05/2009
do inédito Cine ABC
05/04/2009
dezenas de passarinhos o visitam diariamente
na sacada do apartamento
há um relacionamento de confiança entre eles
Cambacicas, Sanhaços, Saíras, Beija-flores
querem seu quinhão de água doce e guaraná
lê a Zero todos os dias
ouve o noticioso, assiste aos telejornais
não dá mais pra acreditar nos políticos
bandido brasileiro só é bandido no exterior
aqui é ministro, deputado, senador
preocupa-se com os netos, com os amigos
com parentes, o condomínio
comigo como se eu tivesse 48 anos
minha mãe não
pra ela não passei dos oito, treze, dezoito
os passarinhos fazem algazarra na sacada
querem mais do néctar que só ele faz
cada um tem um pai que o trouxe ao mundo
eu tenho um que ainda me trás
27/03/2009
uma caligrafia do imaginário
se reproduz segundo um código cifrado
em que se representam as idéias mediante caracteres simbólicos
metáforas consecutivas consideradas organicamente
nas constelações a que pertencem
sem auxílio de referências outras que não elas mesmas
mas, ao acolher ecos e reverberações sígnicas não mensuráveis
mantém um sentido, nas feições, no gesto
sempre transfigurado
assim uma escritura em ruptura
que avança do familiar ao desconhecimento
é lavrada no livro secreto das dúvidas
e, sem aparente significado especial
desprovida de qualquer relevância imediata
apenas e tão somente
articula substâncias essenciais medulares
exprimindo, por alusão, matéria subliminal
potencialmente transgressiva
pois esta entidade abstrata
esta quase impossibilidade
literalmente incapaz de ser definida
e determinada com certeza e/ou precisão
propaga-se, conceitual e esteticamente
quer por intangível que seja
quer por outro qualquer motivo
para além dos mapas tábuas e notações pré-estabelecidas
onde por exemplo, pedra em relação a ventania
harpia em relação a fósforo
ou ainda estrevania em relação a betoneira
habitam o âmago de uma mesma incógnita
sinto muito pelos cinco sentidos
não sentem o que eu sinto
os dois pés na cabeça de um fermento
encalacrado fora da zona de segurança
quando cada pormenor sem valor é crucial
e percorre o mesmo sol insólito dos hieróglifos
e, diferentemente do que se enuncia
a complexa simplicidade das coisas não requer preâmbulos
afirma-se per si, por abrasão, atrito, ou pelo puro
logológico jogo dos esquivocábulos
em sendo assim
uma poética das arestas é o que resta
protuberância viva no desmesuradamente plano
a parte visível do infinitamente dentro
o quinto lado do triângulo
27/02/2009

não busco a palavra exata
o sentido. o sentimento
nem a pedra lançada no firmamento
ventania que represa o rio
entendimento
ou a palavra pela palavra
o sofrimento antigo. o novo
a liberdade selvagem do lobo
instinto que se quer arte
perfeição do ovo
não busco. mas encontro
.
alexandre brito
do inédito Cine ABC
26/02/2009
a rede
mergulhado na tarde esquisita
cometo uma ideia aqui outra ali
entrevejo a mulher que eu adoro
e me divirto
aspiro rapé
alguns decímetros cúbicos de ar
e um poema beat desmesurado
"...a irrealidade é meu chão
e o esquecimento a minha bússola"
há que dispormos das armas necessárias no cinto de mil e uma inutilidades para enfrentar os malfeitores, a burocracia maquiavélica oficial remunerada e os arque-inimigos do Pasquim
mergulhado nessa esquisitice completa
faço anotações pra depois do crepúsculo
o crepúsculo tem músculos, oníricos músculos
e tudo ronrona depois do crepúsculo
basta esticar o dedo e pedir uma carona que ele te leva onde ninguém
só você
cochilo sobre essa ideia
"...depois do crepúsculo tudo ronrona"
desperto hirto
aquela manhã morna virou essa tarde quente
ê modorra pachorrenta... antes uma rede
meu reino por uma rede
a mulher que eu adoro se despe
abre suas asas de delícias sobre nossa cama
quero o que ela quer
o poema pode esperar
.
alexandre brito
do inédito cine ABC

dezoito horas e quarenta minutos
de uma tarde infernal de verão
assombrada
minha sombra enlouquece
estica-se à deformidade
alcança a fachada das casas distantes
agarra o horizonte
esforço inútil
a penumbra não tarda
seremos uma só escuridão
.
alexandre brito
do inédito Cine ABC
22/02/2009

o taifeiro
sob a lâmina das águas
dorme a carcaça do jovem taifeiro
nunca mais as fragatas
nunca mais os prostíbulos
as nódoas da manhã inquieta
nunca mais
crispam-se as ondas
dançam as algas
gritam os peixes
imperturbável é o sono das profundezas
cai o sol
cai a noite sobre o cais
nunca mais o dia
nunca mais
nunca mais
dorme o jovem taifeiro em seu leito de areia
sob o lençol negro de um oceano decepado
.
alexandre brito
do inédito Cine ABC




