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11/04/2010








poema: AleSandra
Sandra Santos e Alexandre Brito

23/11/2009




Photografia


parar o tempo
por exemplo
dá que pára
numa véspera de morte
ou
pelo contrário
em algum momento
de sorte

hoje
quem sabe
o tempo volte


Alice Ruiz

Alice Ruiz nasceu em Curitiba, PR. a autora de "Navalha na Liga" já publicou mais de 15 livros, entre poesia, traduções e infantil. prêmio Jabuti de poesia com "Desorientais" em 1997 e "Dois em Um em 2009. a poeta tem mais de 50 músicas gravadas por parceiros e intérpretes, entre eles: Alzira Espíndola, Arnaldo Antunes, Itamar Assunção, Zé Miguel Wiznik e Zeca Baleiro.




Soneto da casa invadida


Bandidos, cada vez mais atrevidos,
estão entrando em casas de família!
O bando mata os donos, rouba, pilha,
saqueia, até em cadáveres caídos!

Agora já não fogem, nem ruídos
evitam que se escutem! A mobília
carregam, ou ali mesmo a quadrilha
partilha jóias, ternos e vestidos!

Num lar de classe média, tomam conta
do próprio imóvel! No criado-mudo
da cama de casal, a extrema afronta:

Está o porta-retrato ali, mas tudo
que a foto mostra, um rosto que amedronta,
é o dele, do assaltante bigodudo!


Glauco Mattoso

Glauco Mattoso é paulistano. um dos mais radicais representantes da ficção erótica e da poesia fescenina em língua portuguesa. celebrizou-se na década de 80 como autor do fanzine anarcopoético Jornal Dobrabil e do romance fetichista Manual do Pedólatra Amador. de 90 pra cá, publicou mais de 20 volumes de poesia entre os quais a antologia Poesia digesta (1974/2004) e Animalesca escolha (AmeopoemA-2004). adepto fervoroso da glosa decimal e do soneto clássico, destaca-se também como lexicógrafo no bilíngüe Dicionarinho de palavrões.
nas fotografias do livro
a grama está sempre
bem cortada
em volta das palmeiras
você nunca saberá
quem sou
mas eu existo e moro
perto de chestermill
no norte da austrália
tenho filhos como você
e também sofro com
a fome e as guerras
no mundo
meu Trabalho é esse:
fazer com que a grama
esteja sempre muito
bem cortada em volta
das palmeiras,
sem aparecer
nas fotografias
Nicolas Behr
Nicolas Behr nasceu em Cuiabá. mora em Brasília desde 1974, de quem se tornou o poeta mais representativo. em 1977 publicou num mimeógrafo Iogurte com farinha. em 1978, após publicar Grande circular, Caroço de goiaba e Chá com porrada, foi preso e processado pelo DOPS por “porte de material pornográfico”. seu último livro, indicado ao Prêmio Jabuti de 2008, foi Laranja Seleta (Ed. Língua Geral).




Que dizer da usura do verso
da verve do velho da virulência do verbo

verso usado verso ousado
todos foram inéditos

como a cor púrpura no retrato


Sandra Santos

Sandra Santos estreou nas letras aos 15 anos de idade, com o livro “Crônicas da Minha Cidade”, edição comemorativa do centenário de São Luiz Gonzaga, sua cidade natal. Tem poemas e contos perdidos em diversas antologias. É artista plástica, flautista e nerd, não necessariamente nesta ordem. É “cria” do “Homem que sabia Javanês”, mas sua escrita é em Java.

22/11/2009





suicídio lento
na mobília da alma
os versos que invento


Lau Siqueira

Lau Siqueira nasceu em Jaguarão-RS e reside na Paraíba. publicou 4 livros de poemas. escreve no blog Poesia Sim, www.poesia-sim-poesia.blogspot.com
Ode de ódio à fotografia
Dez mil mortes às portas da câmara escura
a que tens por caverna, tu
que deusa não és e a mitos
não te prestas, arte das frestas
Dez mil mortes à rua entre as casas
e os pontos de luz,
comedora de signos
Câmara ardente de imagens vistas,
muito menos que sonoras,
não vales sequer uma palavra
Dez mil mortes almejo à câmara tua
Linguagem crua és, ausência pura ou
marca de presenças que se foram já
quando as detiveste,
suspensas no nada de si mesmas
Menos que ideograma: fotograma
Menos que ideografia: fotografia
És foto, não grafas
Tudo o que és:
resto de sonho anterior a uma língua morta
descrita por mestre indiano, pedaço de sphota ou
fantasma de sombras chinesas,
mero instantâneo da idéia
do sopro mediano,
mas distante do Tao
O Tao não é aquilo que és,
quase-pictrograma
sem caráter
Mas te necessito
para o sorriso dela junto ao meu
em frente ao lago os lotus em flor
naquele verão ou qualquer viagem
mesmo à beira da cama
Para a vida pequena que levo
entre rastros de sagrados,
para o casamento com ela,
te necessito
sim, musa fria
Dez mil horas sem sono se engolem
em tua vigília, te necessito
porque és leviana, sonsa
e soas sem som no vazio
E não me levas a alma,
estúpida: clicas-me
e te devoro
Quinquilharia da moda,
és tu ou minha língua
Só uma sobreviva,
ó dejeto de subvidas
Digo: abaixo tua cara
desalmada de jornal,
cova rala do raro
Tua verdade toda
encontra-se atrás de ti,
jaz na janela de trás,
no olho que investiga
e estima teu caminho,
segredo de James Stewart,
mistério de Hitchcock
E te necessito,
néscia: te felicito
Ricardo Portugal
Ricardo Portugal é poeta e diplomata, e acaba de retornar de 5 anos vivendo e trabalhando na China. Formado em Letras pela UFRGS, lançou, entre outros, o livro DePassagens, pela Editora AMEOPOEMA, e foi co-organizador e editor do livro bilingüe “Antologia Poética de Mário Quintana”, lançado na China em parceria pelo Consulado-Geral do Brasil em Xangai e a Editora da PUCRS.




Ver o sol
quando não há sol
nuvens muito brancas


Jiddu Saldanha

Jiddu Saldanha é poeta, artista plástico, agitador cultural, professor de meimica e MESTRE DE CERIMÔNIAS em eventos literários. Foi apresentador do Festival Carioca de Poesia, Simpósio Internacional de Contadores de Histórias, Congresso Brasileiro de Poesia, POETERÊ e em diversos Saraus pelo Brasil como o Projeto Poesia na Quarta Capa, no Rio de Janeiro.




velhas fotos
descubro que te amo
desde pequena


Ricardo Silvestrin

Ricardo Silvestrin nasceu e vive em Porto Alegre. recebeu três vezes o Prêmio Açorianos de Literatura – duas como melhor livro de poesia e uma como melhor livro infantil. é colunista do jornal Zero Hora e apresenta na Ipanema FM o programa Transmissão de Pensamento. integra a banda os poETs. publicou em 2008 pela Record o volume de contos Play e o romance O videogame do Rei em 2009.







apartamento gelado
a pilha de roupas respira
o gato usa cueca no pescoço


Renato de Mattos Motta

Renato de Mattos Motta nasceu em Porto Alegre. artista plástico, publicitário, fotógrafo e poeta. publicou Os cantos da carochinha pela editora PortoPoesia em 2009.

21/11/2009




a colônia de cupins trabalha
em minha mesa de centro sua casa

rente às notícias passadas
passeiam traças

e nas tomadas a muda sintonia
das formigas

enquanto o porta-retrato empoeirado
transmuda ácaros em teu descaro
na antiga fotografia


Juliana Meira

Juliana Meira nasceu na cidade de Carazinho. é poeta e advogada. publicou Poema Dilema pela editora PortoPoesia, em 2009. participa de recitais. reside em Porto Alegre.



Flash


põe tua roupa mais chocante,
eu tento a pose mais linda.

vamos ficar bem juntinhos,
olhos nos olhos, sorrindo.

faz de conta que eu sou teu
e que tu me amas ainda.

me beija, finge que nós
fomos felizes um dia.

nos amemos, pelo menos,
durante este eterno instante
da fotografia.


Cairo Trindade

Cairo de Assis Trindade é gaúcho de copacabana, poeta, performer e editor. autor de poematemagia. recebeu alguns prêmios nacionais de poesia. mantém uma oficina de criação literária.




encontrei figura de outros tempos
ela
com o filho pela mão
entrando no colégio bom conselho
ela
sequer viu que eu passava
o filho se escondendo entre suas pernas
tímido
diante do marco de entrada da escola
pensei acordá-la do presente
e fazê-la fitar
um pouco do passado
que passava –
nada fiz –
senão olhar o que era


Jaime Medeiros Jr.

Jaime Medeiros Jr. nasceu em POA-RS. publicou Na Ante-Sala editado pela Editora Portopoesia e T. das Artes em setembro de 2008. é um dos produtores do Portopoesia.



Ronald Augusto
nasceu em Rio Grande. poeta, crítico, ensaísta, editor da editora Éblis. é autor de vários volumes de poesia como Vá de valha, Confissões aplicadas, No assoalho duro, entre outros. Integra a banda os poETs. reside em Porto Alegre.




Alexandre Brito
é poeta, músico e editor. publicou Visagens (Arte Pau-Brasil-SP) Zeros, O fundo do ar e outros poemas (Editora AmeopoemA-RS) e o infantil Circo Mágico (Editora Projeto-RS). integra a banda os poETs. é um dos editores da AmeopoemA.




Porta

(sobre fotografia de Fabiana Majola)

porta,
para onde abres?
o que trazes
por trás do teu perfume?
que vermelho te habita?
que chuvas lamberam
os pés de tuas tábua?
que mãos amaciaram
tua dura maçaneta?
quem imaginou
tua ríspida simetria?

quem te olha
como auscultando?
quem te fotografa
como pedindo
que te abras?
que setas
te delimitam?
qual verde
te escala?
porta,
és como uma boca:
fala!


Sidnei Schneider

Sidnei Schneider é poeta, tradutor, contista, e bacharelando em Letras/Inglês pela UFRGS. Autor dos livros de poesia Quichiligangues (Dahmer, 2008), entre outros. 1º lugar no Concurso de Contos Caio Fernando Abreu, UFRGS, 2003 e 1º lugar em poesia no Concurso Talentos, UFSM, 1995, de um total de treze premiações. Publicou artigos, poemas, contos e traduções de poesia em jornais e revistas.




Tem umas coxas quentes
e uns joelhos friíssimos,
uma boca macia,
boa de beijar;
uma ampla bacia,
mas não quer engravidar.
Um narizinho de biscuit,
mas queimado,
e uns olhos que, iguais,
nunca vi.
Tem tanta beleza
que, até sentada à mesa,
me faz saltar o coração
à boca, eu o mastigo
com a torrada coberta de geléia.
Ah, que a tua beleza é nobre, plebéia.
O teu corpo me desfalece,
me adoece, me restabelece,
me embevece, me aquece,
me tenta, me sustenta,
me arrebenta, me reinventa
como se eu fosse o primeiro homem,
com fome da tua carne
desatada entre a mornidão dos lençóis.
Da tua macia e fria carne,
alimento, elemento
do meu verso quando, suspenso pelo vento
da imaginação, me sento
frente ao desafio dessa paixão,
deixando-a guiar a minha mão
pelo branco labirinto do papel
até dar por acabado este retrato,
o teu, abstrato.


Gilberto Wallace


Gilberto Wallace Battilana é poeta, contista, editor da revista Folha de Letras, ministra oficinas de criação literária. Publicou "O artesão da solidão", poemas. Participou de antologias de premiados em concursos de conto e poesia. blogdobattilana@blogspot.com



Banca rota


O farto manuseio das pedras
aproxima a morte do trapo
o fecho do lacre
crack
crack
desanima o ensaio da foto


Liana Marques


Liana Marques foi contaminada com o vírus da poesia. essa invulgar lexo-virose a tomou por inteiro. participou de inúmeros recitais, encontros literários, e, depois de participar da oficina "A precisão do impreciso", ministrada pelo poeta Ronald Augusto, começou a cometer poemas cada vez mais qualificados. o diagnóstico atual é taxativo: Liana Marques tornou-se uma poeta.

10/09/2009





sobre o aparador
um recorte de jornal
trinta reais, com local


Túlio Henrique Pereira

Túlio Henrique Pereira nasceu em Itumbiara-GO. é formado em História pela Universidade Estadual de Goiás [UEG]. reside atualmente na Bahia. publicou O observador do mundo finito, entre outros.

27/08/2009

poesia brasileira contemporanea - contemporary Brazilian poetry



Zé Pelintra do Catimbó

o mal-ajambrado pretende fazer boa figura
presunçoso nos modos e no vestir
não sente constrangimento algum de seus atos sensuráveis
dá um trato legal no visú
e sai por aí esbanjando malandrage
idade não desmerece
preto quase preto retinto
terno branco de bric
camisa de cetim vermelho, chapéu
branco também, usadinho em bom estado
de bric também
e já vai ele de bengala,
corrente dourada, anéis nos dedos
elegância manemolente
lhe cairia bem um dente de ouro no sorriso
mas não tem pro gasto
vai baixar lá no catimbó da Mãe serena
antiga na religião
renega Umbanda, Candomblé, Batuque
Catimbó é tradição
Mãe preta gosta de batidinha de coco
pinga com butiá, ou purinha mesmo
Mãe serena é Zé Pelintra
tem festa no Congá.

alexandre brito
do inédito Cine ABC
poesia brasileira contemporanea - contemporary Brazilian poetry



sopra o vento
sento em silêncio
sentir é lento



alexandre brito
do livro Zeros / Coleção Petit-Poa