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22/11/2009

Ode de ódio à fotografia
Dez mil mortes às portas da câmara escura
a que tens por caverna, tu
que deusa não és e a mitos
não te prestas, arte das frestas
Dez mil mortes à rua entre as casas
e os pontos de luz,
comedora de signos
Câmara ardente de imagens vistas,
muito menos que sonoras,
não vales sequer uma palavra
Dez mil mortes almejo à câmara tua
Linguagem crua és, ausência pura ou
marca de presenças que se foram já
quando as detiveste,
suspensas no nada de si mesmas
Menos que ideograma: fotograma
Menos que ideografia: fotografia
És foto, não grafas
Tudo o que és:
resto de sonho anterior a uma língua morta
descrita por mestre indiano, pedaço de sphota ou
fantasma de sombras chinesas,
mero instantâneo da idéia
do sopro mediano,
mas distante do Tao
O Tao não é aquilo que és,
quase-pictrograma
sem caráter
Mas te necessito
para o sorriso dela junto ao meu
em frente ao lago os lotus em flor
naquele verão ou qualquer viagem
mesmo à beira da cama
Para a vida pequena que levo
entre rastros de sagrados,
para o casamento com ela,
te necessito
sim, musa fria
Dez mil horas sem sono se engolem
em tua vigília, te necessito
porque és leviana, sonsa
e soas sem som no vazio
E não me levas a alma,
estúpida: clicas-me
e te devoro
Quinquilharia da moda,
és tu ou minha língua
Só uma sobreviva,
ó dejeto de subvidas
Digo: abaixo tua cara
desalmada de jornal,
cova rala do raro
Tua verdade toda
encontra-se atrás de ti,
jaz na janela de trás,
no olho que investiga
e estima teu caminho,
segredo de James Stewart,
mistério de Hitchcock
E te necessito,
néscia: te felicito
Ricardo Portugal
Ricardo Portugal é poeta e diplomata, e acaba de retornar de 5 anos vivendo e trabalhando na China. Formado em Letras pela UFRGS, lançou, entre outros, o livro DePassagens, pela Editora AMEOPOEMA, e foi co-organizador e editor do livro bilingüe “Antologia Poética de Mário Quintana”, lançado na China em parceria pelo Consulado-Geral do Brasil em Xangai e a Editora da PUCRS.

21/11/2009




Porta

(sobre fotografia de Fabiana Majola)

porta,
para onde abres?
o que trazes
por trás do teu perfume?
que vermelho te habita?
que chuvas lamberam
os pés de tuas tábua?
que mãos amaciaram
tua dura maçaneta?
quem imaginou
tua ríspida simetria?

quem te olha
como auscultando?
quem te fotografa
como pedindo
que te abras?
que setas
te delimitam?
qual verde
te escala?
porta,
és como uma boca:
fala!


Sidnei Schneider

Sidnei Schneider é poeta, tradutor, contista, e bacharelando em Letras/Inglês pela UFRGS. Autor dos livros de poesia Quichiligangues (Dahmer, 2008), entre outros. 1º lugar no Concurso de Contos Caio Fernando Abreu, UFRGS, 2003 e 1º lugar em poesia no Concurso Talentos, UFSM, 1995, de um total de treze premiações. Publicou artigos, poemas, contos e traduções de poesia em jornais e revistas.