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01/07/2009

poesia brasileira contemporanea - contemporary Brazilian poetry



O museu

por que um museu?
perguntou a musa ao dicionário
porque é necessário respondeu

tem que ter
um lugar um lugar um lugar
onde ver cabe dentro do olhar

que mancha vira rinoceronte

janela porta proutro horizonte
hoje nunca esquece de anteontem
e mármore flutua mais leve que o ar

um lugar sem pressa
que os azulejos contem uma história
e as escadas encantadas
levem ao mundo dos contos de fada

onde a emoção exata de um tigre
salte da xícara para a íris
e uma idéia, na sua forma alada mais rara
surpreenda o visitante e encontre um coração

um lugar que...
quando todos vão embora
e tudo fica completamente a sós
o vento que vem de lugar nenhum
sopra pelos corredores

as esculturas ganham vida
os personagens descem dos quadros
seguem todos para o grande salão
e lá reunidos, se divertem, dançam
fazem piadas sobre nós


alexandre brito
ilustração: Eduardo Vieira da Cunha

18/10/2008


pé de moleque

o museu do chulé
não dá pra acreditar

é uma inhaca só

meia fedida, tênis suado
sapato fedorento, coturno de soldado
pantufa xexelenta, chuteira chulepenta
chinelo de menino relaxado

tudo minuciosamente catalogado

pé rançoso, fedegoso, malcheiroso
pestilento, virulento, infecto contagioso
tem bodum de tudo quanto é bodoso

carpim de padre, sandália de pescador
frieira de freira, pezinho de princesa
bota catinguenta de estivador

a fedentina nunca acaba

os visitantes vão circulando
torcem o nariz, fazem caras
futum é o que não falta

pra quem não agüenta o fedor
tem prendedor


alexandre brito
do inédito Museu desmiolado