27/02/2009



não busco a palavra exata
o sentido. o sentimento
nem a pedra lançada no firmamento
ventania que represa o rio
entendimento

ou a palavra pela palavra
o sofrimento antigo. o novo
a liberdade selvagem do lobo
instinto que se quer arte
perfeição do ovo

não busco. mas encontro
.

alexandre brito
do inédito Cine ABC

26/02/2009


a rede


mergulhado na tarde esquisita
cometo uma ideia aqui outra ali
entrevejo a mulher que eu adoro
e me divirto


aspiro rapé
alguns decímetros cúbicos de ar
e um poema beat desmesurado


"...a irrealidade é meu chão
e o esquecimento a minha bússola"

há que dispormos das armas necessárias no cinto de mil e uma inutilidades para enfrentar os malfeitores, a burocracia maquiavélica oficial remunerada e os arque-inimigos do Pasquim

mergulhado nessa esquisitice completa
faço anotações pra depois do crepúsculo


o crepúsculo tem músculos, oníricos músculos
e tudo ronrona depois do crepúsculo
basta esticar o dedo e pedir uma carona que ele te leva onde ninguém
só você


cochilo sobre essa ideia
"...depois do crepúsculo tudo ronrona"


desperto hirto

aquela manhã morna virou essa tarde quente

ê modorra pachorrenta... antes uma rede
meu reino por uma rede


a mulher que eu adoro se despe
abre suas asas de delícias sobre nossa cama
quero o que ela quer

o poema pode esperar
.
alexandre brito
do inédito cine ABC



dezoito horas e quarenta minutos
de uma tarde infernal de verão

assombrada
minha sombra enlouquece

estica-se à deformidade
alcança a fachada das casas distantes
agarra o horizonte

esforço inútil
a penumbra não tarda
a noite engolirá a ambos

seremos uma só escuridão

.
alexandre brito
do inédito Cine ABC

22/02/2009


o taifeiro


sob a lâmina das águas

dorme a carcaça do jovem taifeiro


nunca mais as fragatas

nunca mais os prostíbulos

as nódoas da manhã inquieta

nunca mais


crispam-se as ondas

dançam as algas

gritam os peixes

imperturbável é o sono das profundezas


cai o sol

cai a noite sobre o cais

nunca mais o dia

nunca mais

nunca mais


dorme o jovem taifeiro em seu leito de areia

sob o lençol negro de um oceano decepado

.

alexandre brito

do inédito Cine ABC

31/12/2008


Mergulho na tua noite
à procura de mim

seres inanimados
eclodem na sua forma humana

navegador incauto
eis-me um náufrago à deriva

inviabilizo-me nessa realidade crua
enternecendo-me de suas criaturas

busco um espelho que te reflita
uma imagem que me seduza

abandono o lugar de espectador
peregrino corpos e copos

tateio as ilusões das tuas perfídias
nessa minha sina de feiticeira

te revelo e me reinvento
e já não me sabes, e já não me sei
.
.
Sandra Santos
nascida em São Luis Gonzaga, cidade missioneira das mais antigas do Rio Grande do Sul, é uma artista genuína. poeta, contista, artista plástica. sua arte persegue a alma humana como os olhos de uma águia, profundamente, agudamente, ou de um pesquisador, silencioso, invisível, observador. com o ar que respira sopra a flauta mágica que encanta e me encantou.

18/10/2008


pé de moleque

o museu do chulé
não dá pra acreditar

é uma inhaca só

meia fedida, tênis suado
sapato fedorento, coturno de soldado
pantufa xexelenta, chuteira chulepenta
chinelo de menino relaxado

tudo minuciosamente catalogado

pé rançoso, fedegoso, malcheiroso
pestilento, virulento, infecto contagioso
tem bodum de tudo quanto é bodoso

carpim de padre, sandália de pescador
frieira de freira, pezinho de princesa
bota catinguenta de estivador

a fedentina nunca acaba

os visitantes vão circulando
torcem o nariz, fazem caras
futum é o que não falta

pra quem não agüenta o fedor
tem prendedor


alexandre brito
do inédito Museu desmiolado




dissabor
de saber
eu sei


dessaber
de amar
eu soube


sabor de
não saber
eu sei de cor



alexandre brito
O fundo do ar e outros poemas / ameopoema editora

17/05/2008





tarde quente
penso em você
vestida de brisa



meio-dia e meia
fome pouca
saudade inteira



lua na janela
ela olha pra mim
eu olho pra ela



levou meu cheiro
deixou um beijo, despido
de despedida


alexandre brito

do inédito Cine ABC.




vento nenhum
parou para ouvir
o silêncio da noite




lua alta
céu claro
o som da folha caindo




lua clara
a nuvem some
atrás da araucária




enquanto os carros repousam no estacionamento
a lua cheia de fevereiro cruza o céu
sobre a única araucária



alexandre brito

haicais do inédito Cine ABC.

11/05/2008






Augusto de Campos
com protótipo do holograma "poema-bomba"




morituro 1994



tour 1994



poema-bomba (holograma) 1987



pós-tudo 1984



pó de cosmos 1984



sol de maiakovski 1982



o quasar 1975



pulsar 1975



tudo está 1974



código 1973




cidadecitycité 1963

tensão (1956)

clique sobre as imagens

Augusto Luís Browne de Campos
poeta, tradutor, ensaísta, crítico de literatura e música, em 1951 publicou o seu primeiro livro de poemas, O rei menos o reino. Em 1952, com seu irmão Haroldo de Campos e Décio Pignatari, dando início ao movimento internacional da Poesia Concreta no Brasil, lançou a revista literária Noigandres, origem do Grupo Noigandres. em 1955, no segundo número da revista, publicou uma série de poemas em cores, Poetamenos, considerados os primeiros exemplos consistentes de poesia concreta no Brasil. o verso e a sintaxe convencional eram abandonados e as palavras rearranjadas em estruturas gráfico-espaciais, algumas vezes impressas em até seis cores diferentes, sob inspiração da Klangbarbenmelodie (melodia de timbres) de Webern. em 1956 participou da organização da Primeira Exposição Nacional de Arte Concreta (Artes Plásticas e Poesia), no Museu de Arte Moderna de São Paulo. sua obra veio a ser incluída, posteriormente, em muitas mostras, bem como em antologias internacionais como as históricas publicações Concrete Poetry: an International Anthology, organizada por Stephen Bann (London, 1967), Concrete Poetry: a World View, por Mary Ellen Solt (University of Bloomington, Indiana, 1968), Anthology of Concrete Poetry, por Emmet Williams (NY, 1968). a maioria dos seus poemas acha-se reunida em Viva Vaia, 1979, Despoesia, 1994 e Não, 2003. outras obras importantes são Poemóbiles (1974) e Caixa Preta (1975), coleções de poemas-objetos em colaboração com o artista plástico e designer Julio Plaza. seu livro, Não poemas (2003), recebeu o prêmio de Livro do Ano, concedido pela Fundação Biblioteca Nacional.

Ferreira Gullar

PELA RUA


Sem qualquer esperança
detenho-me diante de uma vitrina de bolsas
na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, domingo,
enquanto o crepúsculo se desata sobre o bairro.

Sem qualquer esperança
te espero.
Na multidão que vai e vem
entra e sai dos bares e cinemas
surge teu rosto e some
num vislumbre
e o coração dispara.
Te vejo no restaurante
na fila do cinema, de azul
diriges um automóvel, a pé
cruzas a rua
miragem
que finalmente se desintegra com a tarde acima dos edifícios
e se esvai nas nuvens.

A cidade é grande
tem quatro milhões de habitantes e tu és uma só.
Em algum lugar estás a esta hora, parada ou andando,
talvez na rua ao lado, talvez na praia
talvez converses num bar distante
ou no terraço desse edifício em frente,
talvez estejas vindo ao meu encontro, sem o saberes,
misturada às pessoas que vejo ao longo da Avenida.
Mas que esperança! Tenho
uma chance em quatro milhões.
Ah, se ao menos fosses mil
disseminada pela cidade.

A noite se ergue comercial
nas constelações da Avenida.
Sem qualquer esperança
continuo
e meu coração vai repetindo teu nome
abafado pelo barulho dos motores
solto ao fumo da gasolina queimada.

Dentro da noite veloz (1962-75)


OSWALD MORTO

enterraram ontem em São Paulo
um anjo antropófago
de asas de folha de bananeira
(mais um nome que se mistura à nossa vegetação tropical)
As escolas e as usinas paulistas
não se detiveram
para olhar o corpo do poeta que anunciara a civilização do ócio
Quanto mais pressa mais vagar

O lenço em que pela última vez
assoou o nariz
era uma bandeira nacional
NOTA:
Fez sol o dia inteiro em Ipanema
Oswald
de Andrade ajudou o crepúsculo
hoje domingo 24 de outubro de 1954

O vil metal (1954-60)


TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

Na vertigem do dia (1975-1980)

MEU PAI

meu pai foi
ao Rio se tratar de
um câncer (que
o mataria) mas
perdeu os óculos
na viagem

quando lhe levei
os óculos novos
comprados na Ótica
Fluminense ele
examinou o estojo com
o nome da loja dobrou
a nota de compra guardou-a
no bolso e falou:
quero ver
agora qual é o
sacana que vai dizer
que eu nunca estive
no Rio de Janeiro

UM INSTANTE


Aqui me tenho
como não me conheço
nem me quis

sem começo
nem fim

aqui me tenho
sem mim

nada lembro
nem sei

à luz presente
sou apenas um bicho
transparente

Muitas vozes (1999)


CANTIGA PARA NÃO MORRER

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Dentro da noite veloz (1962-75)




POEMA BRASILEIRO


No Piauí de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade

No Piauí
de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade

No Piauí
de cada 100 crianças
que nascem
78 morrem
antes
de completar
8 anos de idade

antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade

Dentro da noite Veloz (1972 - 75)



Ferreira Gullar
é talvez, junto com Augusto de Campos, um dos grandes poetas brasileiros ainda vivos que, podemos dizer, influenciaram decisivamente a tradição deste gênero no Brasil. flertou com os poetas concretos, participou da fundação do movimento neo-concretista, afastou-se destes, sempre mantendo uma postura crítica independente. seu "Poema Sujo", escrito em 1975, respondendo às circunstâncias criadas pelo regime de excessão instalado pelos militares desde o golpe de 64, foi lido e relido clandestinamente em inúmeras reuniões por militantes, intelectuais e estudantes, naqueles difíceis anos de chumbo. seu trabalho sempre permaneceu aberto às experiências estéticas inovadoras. ainda em atividade, sua linguagem vai além do horizonte das palavras. o poeta, também crítico de arte, pinta quadros, faz colagens e desenhos. é o que ele chama de seu "lado B".







clique sobre os poemas


alexandre brito
3 poemas visuais do livro Zeros - coleção Petit-Poa /1991.

07/05/2008





no dia seguinte
decifrando os sulcos da caneta
na página em branco
ao resgatar o poema posto fora
encontrei a minha arte




alexandre brito
do inédito Cine ABC