29/04/2008
O POEMA
O universo te atravessa.
O universo, nada menos que o universo,
com seus lagos, montanhas, desertos,
espaços intermináveis, os astros.
Te atravessa.
Nada sobra de ti nem dele,
a não ser, talvez, o poema.
FELICIDADE
Isto que eu estou sentindo
pode-se chamar felicidade.
Só que a própria felicidade é
temor, susto, apreensão.
Não dá pra dar felicidade,
mas eu gostaria de lhes dar como uma flor.
Deus não me puna os pecados,
neles já vem o castigo.
Pecados de egoísmo, indecisão,
deixar morrer de fome e comer,
amar demais e não saber amar.
Eu sinto nos ombros a culpa do mundo
mas sozinho sucumbo.
Eu choro no cinema.
PÊNDULA
tinha cinco anos
e soube o que era a noite
por este relógio de pêndulo
que foi de meus pais e conservo.
Só eu acordado nesta casa
e ele bateu onze horas,
cada uma mais noturna.
Fui dormir e não pude.
Às onze e meia
tornou a dar sinal de vida,
de uma vida no escuro,
e esperei as doze punhaladas.
Foram doze.
Ele na sala, eu na cama,
dentro da noite.
Há anos o silenciei.
Merecia o descanso
depois de marcar tantas horas.
Nem eu tinha de seguir escutando,
preferia esquecer, esquecer.
No entanto, calado, aturde
com o silêncio em que tudo acaba,
ele que contou as horas do meu tempo,
horas do dia e da noite,
cumpridor, certo, sem perdão.
O PRÓXIMO MINUTO
Cada dia
tem uma manhã inteira,
uma tarde ainda mais longa,
uma noite que se diria sem fim.
Cada dia
de uma série ininterrupta
de dias, semanas, meses, anos.
E já não está fácil
o próximo minuto!
TRANSITÓRIO
E pensar que o autor deste verso não existe mais.
Pensar nos trabalhos dos seus dias,
que às vezes amou, outras se viu ferido,
quis viver e quis morrer, como qualquer um,
e mesmo assim teve alento para deixar que viesse até ele esse verso,
que o salvou na hora e nos salva agora.
SER SIMPLES
Admirar o admirável
sem surpresa.
Amar e não amar
reconhecendo-o.
Sentir frio,
sentir calor,
sentir com os outros.
Conhecer
a última canção.
Discutir o filme.
Falar ao desconhecido
como se não fosse,
à criança como a um adulto,
ao adulto como a uma criança.
Ser simples.
Ser simples
para chegar ao real.
Ser simples
para ser poeta.
Paulo Hecker Filho (1926 - 2005)
está entre os grandes da literatura brasileira. poeta, tradutor, crítico, intelectual (bibliófilo) de refinada erudição, é na poesia que alcança o ápice da realização artística. sua obra está aí para ser lida, relida, descoberta.
27/04/2008

OS AMANTES
Prometeus distraídos
tomam de assalto a casa de Chronos
e roubam-lhe o fogo
inocentes, cometem o pecado original dos tolos.
param os relógios do mundo.
extinguem os limites do corpo.
desprezam alegremente os apelos
da razão. ignoram, com razão
os apelos do não.
findo o êxtase arrebatador
a dança nupcial dos feromônios, o enlevo
a fúria imortal os alcança.
cai a mão pesada sobre suas cabeças.
decepam-lhes as asas. arrancam-lhes as pálpebras.
às vespas com impiedoso zelo.
um
lançado ao abismo da incerteza.
o outro, às alturas da solidão.
assim permanecerão
infinitamente perdidos um do outro para sempre.
o tempo não passa quando esperamos por algo que não virá.
um náufrago
sabe ter poucas horas de vida.
os amantes, nem isso.
terão de suportar silenciosamente
a eternidade de cada segundo
sem fim.
alexandre brito
do inédito Cine ABC.
15/04/2008
20/03/2008

o guarujá passa
alguma coisa acontece
minha pressa vira prece
e o guaíba deságua na calçada
se o guarujá passa
me vem à cabeça
a balada do pintor
que pintava de mãos amarradas
a imagem daquele louco
que dizia o verdadeiro quadro
nunca estar pronto
esse é o ponto
a poesia me sabe
quem sabe eu sei?
amor é droga pesada
não é melhor em pasárgada
mas se o guarujá passa
antes fosse amigo do rei
a vida é já
tudo passa
passa o guarujá
alguma coisa acontece
minha pressa vira prece
e o guaíba deságua na calçada
se o guarujá passa
me vem à cabeça
a balada do pintor
que pintava de mãos amarradas
a imagem daquele louco
que dizia o verdadeiro quadro
nunca estar pronto
esse é o ponto
a poesia me sabe
quem sabe eu sei?
amor é droga pesada
não é melhor em pasárgada
mas se o guarujá passa
antes fosse amigo do rei
a vida é já
tudo passa
passa o guarujá
alexandre brito
do livro Zeros / Coleção Petit-Poa
do livro Zeros / Coleção Petit-Poa
19/03/2008
O JAGUADARTE
Era briluz.
As lesmolisas touvas roldavam e reviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.
"Foge do Jaguadarte, o que não morre!
Garra que agarra, bocarra que urra!
Foge da ave Fefel, meu filho, e corre
Do frumioso Babassura!"
Ele arrancou sua espada vorpal
e foi atras do inimigo do Homundo.
Na árvore Tamtam ele afinal
Parou, um dia, sonilundo.
E enquanto estava em sussustada sesta,
Chegou o Jaguadarte, olho de fogo,
Sorrelfiflando atraves da floresta,
E borbulia um riso louco!
Um dois! Um, dois! Sua espada mavorta
Vai-vem, vem-vai, para tras, para diante!
Cabeca fere, corta e, fera morta,
Ei-lo que volta galunfante.
"Pois então tu mataste o Jaguadarte!
Vem aos meus braços, homenino meu!
Oh dia fremular! Bravooh! Bravarte!"
Ele se ria jubileu.
Era briluz.
As lesmolisas touvas roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.
poema de Lewis Carroll
traduzido por Augusto de Campos.
10/02/2008

SAINDO DE PAUMANOK
(fragmento)
11.
Uma vez no Alabama, enquanto eu dava
o meu passeio matinal,
vi pousada uma fêmea de pardal
em seu ninho entre os galhos
chocando seus filhotes.
Eu vi também o passarinho-macho
e parei a escutá-lo
ao alcance da mão
inflando o peito e gorjeando em júbilo.
E estando ali parado, me ocorreu
que o canto dele
não era só para o que estava ali,
nem para a parceira dele
nem mesmo para ele só,
nem para tudo que os ecos mandavam
de volta
- mas muito além, sutil e clandestina,
era mensagem transmitida e oculta herança
para os que estavam acabando de nascer.
ENQUANTO EU LIA O LIVRO
enquanto eu lia o livro,
a famosa biografia:
- então é isso (eu me perguntava)
o que o autor chama
a vida de um homem?
e é assim que alguém,
quando morto e ausente eu estiver,
irá escrever sobre a minha vida?
(Como se realmente alguém realmente soubesse
de minha vida um nada,
quando até eu, eumesmo, tantas vezes
sinto que pouco sei ou nada sei
da verdadeira vida que é a minha:
somente uns poucos traços
apagados, uns dados espalhados
e uns desvios, que eu busco
para uso próprio, marcando o caminho
daqui afora.)
Walt Whitman
do livro Folhas das Folhas da Relva / Brasiliense
Tradução Geir Campos
Toda revolução digna deste nome produz seu grande poeta.
"Antena da Raça", o poeta capta, nos tempos de comoção social,
a tremenda energia vital liberada pelas grandes transformações
coletivas, em seu momento agudo, revolucionário ou insurrecional.
Assim, se Maiakovski é o poeta da Revolução Russa, não é exagero
dizer que Walt Whitman (1819-1892) é o poeta da Revolução Americana,
ocorrida uma geração antes (1776) antes do seu nascimento.
O fato (ou o fado) de as revoluções apodrecerem, por mais altos que
sejam seus ideais, pouco afeta a poesia dos que a exaltaram, por elas
exaltados, em seu momento puro, em sua hora plena, em seu meio-dia.
Dai-nos, hoje, Senhor, a utopia de cada dia.
Whitman, o primeiro beatnik, vive da longa vida que só uma grande
poesia (ou uma grande revolução) irradia.
do prefácio de Paulo Leminski
06/02/2008

nada sei
e esse saber me é inestimável
quando criança
(um ano e pouco se tanto)
olhava as coisas sem saber seus nomes
no mundo inominado
ver era quase só o que eu sabia
hoje
setenta invernos completos
despir as coisas do que significam
tornou-se meu passatempo predileto
em meu esquecimento
repousam as cinzas da palavra extinta
e esse saber me é inestimável
quando criança
(um ano e pouco se tanto)
olhava as coisas sem saber seus nomes
no mundo inominado
ver era quase só o que eu sabia
hoje
setenta invernos completos
despir as coisas do que significam
tornou-se meu passatempo predileto
em meu esquecimento
repousam as cinzas da palavra extinta
alexandre brito
do inédito Cine ABC
do inédito Cine ABC
04/02/2008
Fala de pés descalços
Lê de braços abertos
Desenha com os seios de fora
Atende o telefone de costas
Abre a geladeira de bruços
Demora no banho sentada
Ri de pernas cruzadas
Esquece um nome deitada
Beija com o braço esticado
Sonha com as mãos no bolso
Acorda de unhas pintadas
Nasce de olhos fechados
Anda de cabelos molhados
Pensa com os cotovelos no chão
Come de joelhos apoiados
Repousa de qualquer maneira
Diego Petrarca
02/02/2008

Fodam-se as regras
de gramática e redação
Os acadêmicos não são deuses
pra decidir quem é bom ou não
Danem-se os verbos
e suas regras de conjugação
Esses se acham padres
capazes de dar sermão
A literatura é cristo,
um santo que estende a mão
Um poço de sabedoria,
sem limite para o perdão
Pregadores são os que escrevem
relatando o seu tormento
e fingem não ser seu o sofrimento
A poesia é anjo que chega e comunica
que ensina o amor novo
e apaga a chaga antiga
Estrela Ruiz Leminski
do seu livro de estréia Cupido: cuspido, escarrado / Ameopoema Editora
www.ameopoema.com.br

o poeta precisa
de uma caneta
e um papel
por perto,
um computador,
um guardanapo e um batom,
ou ficar olhando para o teto
soletrando coisas
tentando imprimir na memória
até que alguém
estoure a bolha
o sinal abra
o filho chore
alguém empurre por trás na fila
o poeta, então, guarda o poema no bolso
poetas precisam ter consigo
ao menos
um pequeno bloco de notas
e um lápis com ponta
João Angelo Salvadori
do livro Teleférico / Ameopoema Editora
www.ameopoema.com.br
31/01/2008
o Deus da palavra
é um Deus silencioso
cavalga páginas em branco
lacera estruturas neuronais
se entranha na trama celulósica do papel
como um vírus sub-atômico
(da asa ao nada, língua à vida
anima a coisa inanimada)
no sal da sua saliva
pulsa aceso o caos de um céu imaginário
onde nasce a flor axial do sentido
o Deus da palavra
leva o poeta carinhosamente pela mão
até a beira do abismo
alexandre brito
do livro O fundo do ar e outros poemas / Ameopoema Editora
www.ameopoema.com.br
do livro O fundo do ar e outros poemas / Ameopoema Editora
www.ameopoema.com.br
29/01/2008

não quero mais de um poeta
que a sua letra
palavra presa na página
borboleta
nem quero saber da sua vida
da verdade que nunca foi dita
mesmo por ele
que tudo que viveu duvida
não revirem a sua cova
o seu arquivo
é no seu livro que o poeta está enterrado
vivo
que a sua letra
palavra presa na página
borboleta
nem quero saber da sua vida
da verdade que nunca foi dita
mesmo por ele
que tudo que viveu duvida
não revirem a sua cova
o seu arquivo
é no seu livro que o poeta está enterrado
vivo
Ricardo Silvestrin
do livro Palavra Mágica / Massao Ohno Editor

outra fera alegórica
a vaca cor de barro
eu vinha de longe em longe
quando ela me viu
achei no seu olho de boi
um ameaço
havia uma bifurcação
por onde enfiar a esperança
e o temor
ao pé de mim a cada passo
suas bostas
antes deste empate
eu ouvia os sapos
cada coaxar era um buraco
esponjoso de onde um som
de água opaca
Ronald Augusto
do livro no assoalho duro / éblis editora
retrato de Ronald Augusto por Rosa Marques / acrílica sobre papel
26/01/2008

No mar
No mar
escondo segredos
dentro de conchas
que fazem ecos
nos meus ouvidos.
Ecos que escuto em
dias de silêncio e
mormaço.
A cabeça pesa:
para um lado
para o outro.
Até que canso e
descanso.
Escuto o silêncio
do mar
(enquanto as conchas dormem).
Tânia Cardoso de Cardoso
poetas bissextos, expressão cunhada por Manuel Bandeira, são poetas que
caracterizam-se por uma produção episódica. os poemas se lhes acontecem
de raro em raro. no caso, à Tânia, nem podemos aplicar esta definição.
é poeta de "um poema só". quiçá se transforme em poeta bissexta, ou,
ainda melhor, contumaz.
24/01/2008

entre o breu e o brilho
armou o cavalete.
pintava fora do quadro
com os dedos em pleno ar
onde o espaço era amplo
e a tela mais macia.
o que ouvia punha ali.
naquele pedaço
de céu de chão de sonho
o pio do passarinho
a voz do vendedor de loteria
o apito do afiador de facas
a correria para o recreio.
os gritos no pátio do colégio
a mãe chamando para o almoço
e o gosto do bife de fígado da avó
poria depois, bem depois
quando tudo estivesse esquecido
num momento em falso
em alguma noite sem estrelas
sem esperança, sem salvação.
pintou e pintou e pintou
até lembrar
definitivamente
que antes de tudo
toda arte existe pra nada.
alexandre brito
de O fundo do ar e outros poemas / Ameopoema Editora
www.ameopoema.com.br
de O fundo do ar e outros poemas / Ameopoema Editora
www.ameopoema.com.br
23/01/2008
21/01/2008

manuscrito com poema/praga de Alice, sabiamente preservado
por Alonso Alvarez, em noite curitibana memorável de 1986.
por Alonso Alvarez, em noite curitibana memorável de 1986.
praga para o Alexandre
que o breve
seja de um longo pensar
que o longo
seja de um curto sentir
que tudo seja leve
de tal forma
que o tempo nunca leve
Alice Ruiz
praga- poema de apresentação
ao livro Visagens - Alexandre Brito / Arte Pau Brasil
que o breve
seja de um longo pensar
que o longo
seja de um curto sentir
que tudo seja leve
de tal forma
que o tempo nunca leve
Alice Ruiz
praga- poema de apresentação
ao livro Visagens - Alexandre Brito / Arte Pau Brasil
17/01/2008

UMA VELA À NOSSA SENHORA DA BOA MORTE
a liberdade bastarda se infiltra onde
o céu encontra a terra
denuncia intensa atividade literária
essa idéia no papel derramada assim feito gelatina
nem parece uma idéia parece mais um
estorvo feito de cimento e osso
o sol miúdo sem bolor entesourado e mudo
desonera de rapapés e obrigações um aglomerado de
letras na biblioteca universal dos manuscritos
toda tradição se renova pela libertinagem
a boa nova vem pelo esquecimento intencional das regras
um livro que não descenda de nenhum outro é uma indecência
de sorte que o pecado original da invenção
mais que matar o padre e ir ao cinema
é declarar-se órfã pretender-se sem pai sem par
numa semana ensolarada de 22
um bebê de proveta aproveita a tarde à beira mar
no calçadão desenhado por Niemeyer
alexandre brito
do inédito Cine ABC
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