31/12/2008


Mergulho na tua noite
à procura de mim

seres inanimados
eclodem na sua forma humana

navegador incauto
eis-me um náufrago à deriva

inviabilizo-me nessa realidade crua
enternecendo-me de suas criaturas

busco um espelho que te reflita
uma imagem que me seduza

abandono o lugar de espectador
peregrino corpos e copos

tateio as ilusões das tuas perfídias
nessa minha sina de feiticeira

te revelo e me reinvento
e já não me sabes, e já não me sei
.
.
Sandra Santos
nascida em São Luis Gonzaga, cidade missioneira das mais antigas do Rio Grande do Sul, é uma artista genuína. poeta, contista, artista plástica. sua arte persegue a alma humana como os olhos de uma águia, profundamente, agudamente, ou de um pesquisador, silencioso, invisível, observador. com o ar que respira sopra a flauta mágica que encanta e me encantou.

18/10/2008


pé de moleque

o museu do chulé
não dá pra acreditar

é uma inhaca só

meia fedida, tênis suado
sapato fedorento, coturno de soldado
pantufa xexelenta, chuteira chulepenta
chinelo de menino relaxado

tudo minuciosamente catalogado

pé rançoso, fedegoso, malcheiroso
pestilento, virulento, infecto contagioso
tem bodum de tudo quanto é bodoso

carpim de padre, sandália de pescador
frieira de freira, pezinho de princesa
bota catinguenta de estivador

a fedentina nunca acaba

os visitantes vão circulando
torcem o nariz, fazem caras
futum é o que não falta

pra quem não agüenta o fedor
tem prendedor


alexandre brito
do inédito Museu desmiolado




dissabor
de saber
eu sei


dessaber
de amar
eu soube


sabor de
não saber
eu sei de cor



alexandre brito
O fundo do ar e outros poemas / ameopoema editora

17/05/2008





tarde quente
penso em você
vestida de brisa



meio-dia e meia
fome pouca
saudade inteira



lua na janela
ela olha pra mim
eu olho pra ela



levou meu cheiro
deixou um beijo, despido
de despedida


alexandre brito

do inédito Cine ABC.




vento nenhum
parou para ouvir
o silêncio da noite




lua alta
céu claro
o som da folha caindo




lua clara
a nuvem some
atrás da araucária




enquanto os carros repousam no estacionamento
a lua cheia de fevereiro cruza o céu
sobre a única araucária



alexandre brito

haicais do inédito Cine ABC.

11/05/2008






Augusto de Campos
com protótipo do holograma "poema-bomba"




morituro 1994



tour 1994



poema-bomba (holograma) 1987



pós-tudo 1984



pó de cosmos 1984



sol de maiakovski 1982



o quasar 1975



pulsar 1975



tudo está 1974



código 1973




cidadecitycité 1963

tensão (1956)

clique sobre as imagens

Augusto Luís Browne de Campos
poeta, tradutor, ensaísta, crítico de literatura e música, em 1951 publicou o seu primeiro livro de poemas, O rei menos o reino. Em 1952, com seu irmão Haroldo de Campos e Décio Pignatari, dando início ao movimento internacional da Poesia Concreta no Brasil, lançou a revista literária Noigandres, origem do Grupo Noigandres. em 1955, no segundo número da revista, publicou uma série de poemas em cores, Poetamenos, considerados os primeiros exemplos consistentes de poesia concreta no Brasil. o verso e a sintaxe convencional eram abandonados e as palavras rearranjadas em estruturas gráfico-espaciais, algumas vezes impressas em até seis cores diferentes, sob inspiração da Klangbarbenmelodie (melodia de timbres) de Webern. em 1956 participou da organização da Primeira Exposição Nacional de Arte Concreta (Artes Plásticas e Poesia), no Museu de Arte Moderna de São Paulo. sua obra veio a ser incluída, posteriormente, em muitas mostras, bem como em antologias internacionais como as históricas publicações Concrete Poetry: an International Anthology, organizada por Stephen Bann (London, 1967), Concrete Poetry: a World View, por Mary Ellen Solt (University of Bloomington, Indiana, 1968), Anthology of Concrete Poetry, por Emmet Williams (NY, 1968). a maioria dos seus poemas acha-se reunida em Viva Vaia, 1979, Despoesia, 1994 e Não, 2003. outras obras importantes são Poemóbiles (1974) e Caixa Preta (1975), coleções de poemas-objetos em colaboração com o artista plástico e designer Julio Plaza. seu livro, Não poemas (2003), recebeu o prêmio de Livro do Ano, concedido pela Fundação Biblioteca Nacional.

Ferreira Gullar

PELA RUA


Sem qualquer esperança
detenho-me diante de uma vitrina de bolsas
na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, domingo,
enquanto o crepúsculo se desata sobre o bairro.

Sem qualquer esperança
te espero.
Na multidão que vai e vem
entra e sai dos bares e cinemas
surge teu rosto e some
num vislumbre
e o coração dispara.
Te vejo no restaurante
na fila do cinema, de azul
diriges um automóvel, a pé
cruzas a rua
miragem
que finalmente se desintegra com a tarde acima dos edifícios
e se esvai nas nuvens.

A cidade é grande
tem quatro milhões de habitantes e tu és uma só.
Em algum lugar estás a esta hora, parada ou andando,
talvez na rua ao lado, talvez na praia
talvez converses num bar distante
ou no terraço desse edifício em frente,
talvez estejas vindo ao meu encontro, sem o saberes,
misturada às pessoas que vejo ao longo da Avenida.
Mas que esperança! Tenho
uma chance em quatro milhões.
Ah, se ao menos fosses mil
disseminada pela cidade.

A noite se ergue comercial
nas constelações da Avenida.
Sem qualquer esperança
continuo
e meu coração vai repetindo teu nome
abafado pelo barulho dos motores
solto ao fumo da gasolina queimada.

Dentro da noite veloz (1962-75)


OSWALD MORTO

enterraram ontem em São Paulo
um anjo antropófago
de asas de folha de bananeira
(mais um nome que se mistura à nossa vegetação tropical)
As escolas e as usinas paulistas
não se detiveram
para olhar o corpo do poeta que anunciara a civilização do ócio
Quanto mais pressa mais vagar

O lenço em que pela última vez
assoou o nariz
era uma bandeira nacional
NOTA:
Fez sol o dia inteiro em Ipanema
Oswald
de Andrade ajudou o crepúsculo
hoje domingo 24 de outubro de 1954

O vil metal (1954-60)


TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

Na vertigem do dia (1975-1980)

MEU PAI

meu pai foi
ao Rio se tratar de
um câncer (que
o mataria) mas
perdeu os óculos
na viagem

quando lhe levei
os óculos novos
comprados na Ótica
Fluminense ele
examinou o estojo com
o nome da loja dobrou
a nota de compra guardou-a
no bolso e falou:
quero ver
agora qual é o
sacana que vai dizer
que eu nunca estive
no Rio de Janeiro

UM INSTANTE


Aqui me tenho
como não me conheço
nem me quis

sem começo
nem fim

aqui me tenho
sem mim

nada lembro
nem sei

à luz presente
sou apenas um bicho
transparente

Muitas vozes (1999)


CANTIGA PARA NÃO MORRER

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Dentro da noite veloz (1962-75)




POEMA BRASILEIRO


No Piauí de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade

No Piauí
de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade

No Piauí
de cada 100 crianças
que nascem
78 morrem
antes
de completar
8 anos de idade

antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade

Dentro da noite Veloz (1972 - 75)



Ferreira Gullar
é talvez, junto com Augusto de Campos, um dos grandes poetas brasileiros ainda vivos que, podemos dizer, influenciaram decisivamente a tradição deste gênero no Brasil. flertou com os poetas concretos, participou da fundação do movimento neo-concretista, afastou-se destes, sempre mantendo uma postura crítica independente. seu "Poema Sujo", escrito em 1975, respondendo às circunstâncias criadas pelo regime de excessão instalado pelos militares desde o golpe de 64, foi lido e relido clandestinamente em inúmeras reuniões por militantes, intelectuais e estudantes, naqueles difíceis anos de chumbo. seu trabalho sempre permaneceu aberto às experiências estéticas inovadoras. ainda em atividade, sua linguagem vai além do horizonte das palavras. o poeta, também crítico de arte, pinta quadros, faz colagens e desenhos. é o que ele chama de seu "lado B".







clique sobre os poemas


alexandre brito
3 poemas visuais do livro Zeros - coleção Petit-Poa /1991.

07/05/2008





no dia seguinte
decifrando os sulcos da caneta
na página em branco
ao resgatar o poema posto fora
encontrei a minha arte




alexandre brito
do inédito Cine ABC

01/05/2008



O LIVRO

permaneceu mudo durante anos
suas orelhas ouviram tudo o que fora dito naquele recinto

as palavras
tipograficamente impressas no papel amarelado
nunca lidas nunca folheadas
jaziam inertes

surpreendentemente
numa manhã gelada de inverno
precisamente às onze horas e trinta minutos do dia
treze de julho de mil novecentos e cinqüenta e nove
uma segunda-feira, o inesperado
algo admirável acontece

como formigas diminutas no interior das páginas
letras, sílabas, vocábulos, movimentam-se
parágrafos, diálogos, orações, figuras de linguagem, interrogações
tudo se reacomoda internamente para contar uma nova história

sem emitir qualquer juízo
em quatrocentos e trinta e cinco páginas
um relato fidedigno de tudo quanto presenciara ao longo de décadas

a verdade pode afinal vir à tona
as entranhas de três gerações de uma família centenária
expostas à luz e aos olhos dos interventores

mas, inadvertidamente
por um capricho do destino
sua espessura é exata para sustentar como calço
o pé quebrado de uma estante no quarto dos serviçais

seu oportuno e conveniente uso é imediato
o pé da página,
apóia-se, agora, no roda-pé da parede



alexandre brito
do inédito Cine ABC

Hilda Hilst na Casa do Sol


SE EU DISSER

Se eu disser que vi um pássaro
Sobre o teu sexo, deverias crer?
E se não for verdade, em nada mudará o Universo.
Se eu disser que o desejo é Eternidade
Porque o instante arde interminável
Deverias crer? E se não for verdade
Tantos o disseram que talvez possa ser.
No desejo nos vem sofomanias, adornos
Impudência, pejo. E agora digo que há um pássaro
Voando sobre o Tejo. Por que não posso
Pontilhar de inocência e poesia
Ossos, sangue, carne, o agora
E tudo isso em nós que se fará disforme?

DO DESEJO

E por que haverias de querer minha alma

Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

***

Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.


ALCOÓLICAS I

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A Vida é líquida.


CANTARES DO SEM NOME

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.


Hilda Hilst (1930 / 2004)
é considerada uma voz importante da língua portuguesa no século 20. dona de uma linguagem inovadora, produziu mais de quarenta títulos entre poesia, teatro e ficção, ganhando inúmeros prêmios literários.

29/04/2008

Paulo Hecker Filho


O POEMA

O universo te atravessa.
O universo, nada menos que o universo,
com seus lagos, montanhas, desertos,
espaços intermináveis, os astros.
Te atravessa.
Nada sobra de ti nem dele,
a não ser, talvez, o poema.



FELICIDADE

Isto que eu estou sentindo
pode-se chamar felicidade.
Só que a própria felicidade é
temor, susto, apreensão.
Não dá pra dar felicidade,
mas eu gostaria de lhes dar como uma flor.
Deus não me puna os pecados,
neles já vem o castigo.
Pecados de egoísmo, indecisão,
deixar morrer de fome e comer,
amar demais e não saber amar.
Eu sinto nos ombros a culpa do mundo
mas sozinho sucumbo.
Eu choro no cinema.



PÊNDULA

tinha cinco anos
e soube o que era a noite
por este relógio de pêndulo
que foi de meus pais e conservo.
Só eu acordado nesta casa
e ele bateu onze horas,
cada uma mais noturna.
Fui dormir e não pude.
Às onze e meia
tornou a dar sinal de vida,
de uma vida no escuro,
e esperei as doze punhaladas.
Foram doze.
Ele na sala, eu na cama,
dentro da noite.

Há anos o silenciei.
Merecia o descanso
depois de marcar tantas horas.
Nem eu tinha de seguir escutando,
preferia esquecer, esquecer.
No entanto, calado, aturde
com o silêncio em que tudo acaba,
ele que contou as horas do meu tempo,
horas do dia e da noite,
cumpridor, certo, sem perdão.



O PRÓXIMO MINUTO

Cada dia
tem uma manhã inteira,
uma tarde ainda mais longa,
uma noite que se diria sem fim.
Cada dia
de uma série ininterrupta
de dias, semanas, meses, anos.
E já não está fácil
o próximo minuto!


TRANSITÓRIO

E pensar que o autor deste verso não existe mais.
Pensar nos trabalhos dos seus dias,
que às vezes amou, outras se viu ferido,
quis viver e quis morrer, como qualquer um,
e mesmo assim teve alento para deixar que viesse até ele esse verso,
que o salvou na hora e nos salva agora.


SER SIMPLES

Admirar o admirável
sem surpresa.
Amar e não amar
reconhecendo-o.
Sentir frio,
sentir calor,
sentir com os outros.
Conhecer
a última canção.
Discutir o filme.
Falar ao desconhecido
como se não fosse,
à criança como a um adulto,
ao adulto como a uma criança.
Ser simples.
Ser simples
para chegar ao real.
Ser simples
para ser poeta.


Paulo Hecker Filho (1926 - 2005)
está entre os grandes da literatura brasileira. poeta, tradutor, crítico, intelectual (bibliófilo) de refinada erudição, é na poesia que alcança o ápice da realização artística. sua obra está aí para ser lida, relida, descoberta.

27/04/2008



OS AMANTES


Prometeus distraídos
tomam de assalto a casa de Chronos
e roubam-lhe o fogo

inocentes, cometem o pecado original dos tolos.
param os relógios do mundo.
extinguem os limites do corpo.

desprezam alegremente os apelos
da razão. ignoram, com razão
os apelos do não.

findo
o êxtase arrebatador
a dança nupcial dos feromônios, o enlevo
a fúria imortal
os alcança.

cai a mão pesada sobre suas cabeças.
decepam-lhes as asas. arrancam-lhes as pálpebras.
às vespas com impiedoso zelo.

um
lançado ao abismo da incerteza.
o outro, às alturas da solidão.

assim permanecerão
infinitamente perdidos um do outro para sempre.
o tempo não passa quando esperamos por algo que não virá.

um náufrago
sabe ter poucas horas de vida.
os amantes, nem isso.

terão de suportar silenciosamente
a eternidade de cada segundo
sem fim.


alexandre brito
do inédito Cine ABC.

15/04/2008



folheando um livro antigo

página por página

meus dedos colheram a poeira

das palavras


Juliana Meira
tem seus poemas inéditos ainda. poemas de beleza ímpar.
ímpar como a sensibilidade para colher o pó das palavras.
alguns podem ser lidos em seu nascente blog
tempoema:
www.juliana-meira.blogspot.com

20/03/2008



o guarujá passa
alguma coisa acontece
minha pressa vira prece
e o guaíba deságua na calçada

se o guarujá passa
me vem à cabeça
a balada do pintor
que pintava de mãos amarradas

a imagem daquele louco
que dizia o verdadeiro quadro
nunca estar pronto

esse é o ponto
a poesia me sabe
quem sabe eu sei?

amor é droga pesada
não é melhor em pasárgada
mas se o guarujá passa
antes fosse amigo do rei

a vida é já
tudo passa
passa o guarujá


alexandre brito
do livro Zeros / Coleção Petit-Poa

19/03/2008

Lewis Carroll

O JAGUADARTE


Era briluz.

As lesmolisas touvas roldavam e reviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.

"Foge do Jaguadarte, o que não morre!
Garra que agarra, bocarra que urra!
Foge da ave Fefel, meu filho, e corre
Do frumioso Babassura!"

Ele arrancou sua espada vorpal
e foi atras do inimigo do Homundo.
Na árvore Tamtam ele afinal
Parou, um dia, sonilundo.

E enquanto estava em sussustada sesta,
Chegou o Jaguadarte, olho de fogo,
Sorrelfiflando atraves da floresta,
E borbulia um riso louco!

Um dois! Um, dois! Sua espada mavorta
Vai-vem, vem-vai, para tras, para diante!
Cabeca fere, corta e, fera morta,
Ei-lo que volta galunfante.

"Pois então tu mataste o Jaguadarte!
Vem aos meus braços, homenino meu!
Oh dia fremular! Bravooh! Bravarte!"
Ele se ria jubileu.

Era briluz.
As lesmolisas touvas roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.

poema de Lewis Carroll
traduzido por Augusto de Campos.

10/02/2008



SAINDO DE PAUMANOK
(fragmento)

11.
Uma vez no Alabama, enquanto eu dava
o meu passeio matinal,
vi pousada uma fêmea de pardal
em seu ninho entre os galhos
chocando seus filhotes.

Eu vi também o passarinho-macho
e parei a escutá-lo
ao alcance da mão
inflando o peito e gorjeando em júbilo.

E estando ali parado, me ocorreu
que o canto dele
não era só para o que estava ali,
nem para a parceira dele
nem mesmo para ele só,
nem para tudo que os ecos mandavam
de volta
- mas muito além, sutil e clandestina,
era mensagem transmitida e oculta herança
para os que estavam acabando de nascer.


ENQUANTO EU LIA O LIVRO


enquanto eu lia o livro,
a famosa biografia:
- então é isso (eu me perguntava)
o que o autor chama
a vida de um homem?
e é assim que alguém,
quando morto e ausente eu estiver,
irá escrever sobre a minha vida?
(Como se realmente alguém realmente soubesse
de minha vida um nada,
quando até eu, eumesmo, tantas vezes
sinto que pouco sei ou nada sei
da verdadeira vida que é a minha:
somente uns poucos traços
apagados, uns dados espalhados
e uns desvios, que eu busco
para uso próprio, marcando o caminho
daqui afora.)


Walt Whitman
do livro Folhas das Folhas da Relva / Brasiliense
Tradução Geir Campos

Toda revolução digna deste nome produz seu grande poeta.
"Antena da Raça", o poeta capta, nos tempos de comoção social,
a tremenda energia vital liberada pelas grandes transformações
coletivas, em seu momento agudo, revolucionário ou insurrecional.
Assim, se Maiakovski é o poeta da Revolução Russa, não é exagero
dizer que Walt Whitman (1819-1892) é o poeta da Revolução Americana,
ocorrida uma geração antes (1776) antes do seu nascimento.
O fato (ou o fado) de as revoluções apodrecerem, por mais altos que
sejam seus ideais, pouco afeta a poesia dos que a exaltaram, por elas
exaltados, em seu momento puro, em sua hora plena, em seu meio-dia.
Dai-nos, hoje, Senhor, a utopia de cada dia.
Whitman, o primeiro beatnik, vive da longa vida que só uma grande
poesia (ou uma grande revolução) irradia.

do prefácio de Paulo Leminski

06/02/2008


nada sei
e esse saber me é inestimável

quando criança
(um ano e pouco se tanto)
olhava as coisas sem saber seus nomes

no mundo inominado
ver era quase só o que eu sabia

hoje
setenta invernos completos
despir as coisas do que significam
tornou-se meu passatempo predileto


em meu esquecimento
repousam as cinzas da palavra extinta


alexandre brito
do inédito Cine ABC

04/02/2008

Sussu fotografada por Julia Cruz


Fala de pés descalços

Lê de braços abertos
Desenha com os seios de fora
Atende o telefone de costas
Abre a geladeira de bruços
Demora no banho sentada
Ri de pernas cruzadas
Esquece um nome deitada
Beija com o braço esticado
Sonha com as mãos no bolso
Acorda de unhas pintadas
Nasce de olhos fechados
Anda de cabelos molhados
Pensa com os cotovelos no chão
Come de joelhos apoiados
Repousa de qualquer maneira


Diego Petrarca

02/02/2008



Fodam-se as regras
de gramática e redação
Os acadêmicos não são deuses
pra decidir quem é bom ou não

Danem-se os verbos
e suas regras de conjugação
Esses se acham padres
capazes de dar sermão

A literatura é cristo,
um santo que estende a mão
Um poço de sabedoria,
sem limite para o perdão

Pregadores são os que escrevem
relatando o seu tormento
e fingem não ser seu o sofrimento

A poesia é anjo que chega e comunica
que ensina o amor novo
e apaga a chaga antiga



Estrela Ruiz Leminski

do seu livro de estréia Cupido: cuspido, escarrado / Ameopoema Editora
www.ameopoema.com.br



o poeta precisa
de uma caneta
e um papel
por perto,
um computador,
um guardanapo e um batom,
ou ficar olhando para o teto
soletrando coisas
tentando imprimir na memória
até que alguém
estoure a bolha
o sinal abra
o filho chore
alguém empurre por trás na fila

o poeta, então, guarda o poema no bolso

poetas precisam ter consigo
ao menos
um pequeno bloco de notas
e um lápis com ponta



João Angelo Salvadori

do livro Teleférico / Ameopoema Editora
www.ameopoema.com.br

01/02/2008




meus olhos querem os outros
caminhos que não são meus
pequenas coisas grandes
canções que não sei cantar

como um girassol à noite
meus olhos querem os teus
céu de outro lugar



alexandre brito
do livro Zeros / Coleção Petit-Poa

31/01/2008



o Deus da palavra
é um Deus silencioso

cavalga páginas em branco
lacera estruturas neuronais
se entranha na trama celulósica do papel
como um vírus sub-atômico

(da asa ao nada, língua à vida
anima a coisa inanimada)

no sal da sua saliva
pulsa aceso o caos de um céu imaginário
onde nasce a flor axial do sentido

o Deus da palavra
leva o poeta carinhosamente pela mão
até a beira do abismo


alexandre brito
do livro O fundo do ar e outros poemas / Ameopoema Editora

www.ameopoema.com.br

29/01/2008



não quero mais de um poeta
que a sua letra
palavra presa na página
borboleta
nem quero saber da sua vida
da verdade que nunca foi dita
mesmo por ele
que tudo que viveu duvida
não revirem a sua cova
o seu arquivo
é no seu livro que o poeta está enterrado
vivo


Ricardo Silvestrin
do livro
Palavra Mágica / Massao Ohno Editor